domingo, 28 de junho de 2020

Plágios e Delações

PLÁGIOS E DELAÇÕES

I

Tinha dezenove anos. Era uma fase boa mas também braba. A faculdade era uma maravilha mas não dava pra ir a pé, então a luta era pelo dinheiro do ônibus. Se desse, lanchava.

Fiz uma prova de Álgebra Linear, tirei 4,5. Péssimo. Precisava de 9,5 para passar. Um amigo, com a maior boa vontade, que tinha tirado 9 ou 10, me deu aulas particulares grátis. Estudei pacas Chegou a segunda prova, a correção era na hora. DEZ. Quase caí para trás. Maior orgulho.

Saindo da sala, está o amigo com a cara branca de leite, nervoso, suando. Prova em branco. O cara que me deu aulas e me fez passar estava no buraco. Sem que ele tivesse me pedido, fui uma besta e larguei a minha prova na mesa dele. Claro que eu estava errado, muito errado, mas achei injusto demais que a pessoa que me ajudou estivesse no chão ali. Foi uma besteira de um segundo.

Nervoso, ele tinha a prova nas mãos e se enrolou. Não era de cola. A professora veio, desconfiou, mexeu no material e deu o flagrante na prova novinha, dez da silva. Uma gata da sala me ligou à tarde, contou o desastre e aí me senti culpado duas vezes.

Passou uma semana de agonia. Cheguei a procurar a professora na secretaria, não encontrei, sabia que teria que acertar aquilo. Na semana seguinte era a prova final e, quando estou sentado no hall da faculdade, ela veio e educadamente pediu para falar comigo. Fomos até a sala onde seria aplicada a prova. E quando lá chegamos, eu fiz o que sempre esperam de mim, errando ou não:

- Professora, a culpa daquilo foi 100% minha. O amigo não me pediu nada, estou errado e, se a senhora quiser, tem todo o direito de me reprovar inclusive. Eu só consegui passar porque ele me deu aulas, ele me tirou xerox de graça, eu estou sem dinheiro, o meu dez só aconteceu por causa dele. Não devia ter feito aquilo e não tem justificativa, mas explicação. Mil desculpas, estou errado, você decide.

(Silêncio típico de uma mulher madura, refletindo diante daquilo)

- Paulo, eu até entendo. O que eu não esperava era que fosse logo você a fazer isso que tanta gente gosta aqui. Eu vejo quando você está no corredor e o pessoal gosta de você.

Sem brigas, sem notas, sem zero, a professora Regina me deu uma das maiores lições de toda a minha vida. Seja quem você for, você tem uma reputação a zelar. E não dá pra ser mais ou menos bom ou fazer mais ou menos o bem, ou ainda aplicar à ética um formato elástico por casuísmo. De lá para cá, eu errei muitas outras vezes, mas o mesmo cara que fez aquela bobagem também foi o que por 25 anos calculou o principal índice de custas cartorárias do Rio de Janeiro, aplicado a todos os imóveis comercializados, sem deixar uma vírgula para que peritos viessem pra cima, como faz um papa defunto na hora capital.

Agradeci Regina de coração. Não a vejo há 25 anos. Espero que esteja bem. Ela foi uma das pessoas que salvou a minha vida, mas nem sabe. Meu amigo está bem, casado, feliz, é uma boa pessoa, das mais legais e divertidas que conheci na UERJ.

II

A prova era difícil paca, a professora gostava de mim de graça, tinha um pessoal meio bobo que disputava a liderança intelectual da sala com as maiores notas, que na prática não significavam nada.

Veio a prova, com consulta (nunca é fácil), um zum-zum-zum na sala, eu brigando com a calculadora. Pesquisar na matéria é diferente de copiar provas antigas com nota 10. Fiz de cara limpa. Teve gente que nem usou a calculadora pra estimar amostra. Pqp...

No dia do resultado, correção na mesa da professora, ela me chama. Sempre por Paulo Roberto, tal como minha mãe fazia e a Marina faz às vezes:

- Paulo Roberto, sei do seu potencial desde outros períodos, mas você precisa se aplicar mais, a nota é apenas 6,5.

(Duro que nem um coco, meu pai no auge da depressão e alcoolismo, só ia em casa pra dormir e tomar banho, estágio no aperto, aula de manhã e de noite, a Era Collor...)

(Ouço risinhos de dois ou três, que tinham tirado 10 graças ao artifício da prova copiada. O sangue subiu)

- Cristina, minha nota não foi baixa. É que sua prova é difícil e eu a fiz com consulta à matéria, não copiando uma prova antiga idêntica. Sinceramente, se você prestasse mais atenção às provas, já teria percebido que tem gente fazendo sem usar a calculadora, o que é tecnicamente impossível. Claro, tem gente só copiando. Não é problema de aplicação, é de caráter. Duvido que alguém que riu de mim há pouco me desminta.

(Silêncio rubro-negro na hora do gol de barriga, que nem tinha acontecido na época)

Acabei passando, segui, me formei com muita luta. Nunca fui santo mas tenho certeza de que acerto muito mais do que erro, e não me contento em ser bom mas sim em fazer o bem. Demorei mais tempo do que devia para me formar porque não optei por caminhos mais fáceis.

A professora deve ter me escutado. No período seguinte a farra acabou, não teve mais consulta e a matéria passou a ser carne de pescoço. Os dois ou três do risinho passaram a não falar comigo, o que não fez falta nenhuma.

III

Meu humilde diploma foi conquistado com muito suor. Vai fazer 26 anos daqui a menos de dois meses. Passei para dois mestrados, mas desisti por falta de bolsa e de dinheiro. Poderia ter sido um bom professor, é o que dizem. Depois passei por três faculdades, larguei todas pela metade, virei escritor, montei blogs, virei repórter, remontei meu sebo e estou lutando para sobreviver. Vamos ver se dá.

IV 

Perto de ter um ministro da Educação que mente sobre um doutorado que não tem, além de estar em xeque por plágio na tese de mestrado, cá entre nós, eu estou bem na fita. O problema é que, além da minha total oposição a esse desgoverno fascista, escrevi 28 livros como autor e coautor, um currículo que é indesejável para esses transtornados de terra plana, cloroquina e rachadinha. É isso.

@pauloandel ( clique )

Paulo-Roberto Andel é escritor com várias obras publicadas, bacharel em Estatística, radialista e blogueiro.

domingo, 26 de janeiro de 2020

Tragédia Terraplanista

Neste domingo, 26 de janeiro, algo totalmente inimaginável aconteceu. Um grupo formado por três terraplanistas sofreu uma tragédia ao tentar chegar a "borda da Terra".

De acordo com as informações da Agência Terraplanagem Global ( GTA em inglês ), o grupo formado pelos três cientistas acabou morrendo ao sofrer um grave acidente.

O americano Lestrange Guy, o japonês Chitai Shita Otomo e o brasileiro Carlos Relâmpago, morreram no acidente.
Eles teriam ido de avião da Argentina até a base científica na Antártida. E de lá, foram de trenó até o local onde acreditavam ser a fronteira da borda da Terra.

A tragédia ocorreu porque uma tempestade de neve diminuiu a visibilidade dos três cientistas, que acabaram despencando da borda da Terra.

Eles caíram no vazio, e morreram ao despencar de uma altura ainda não calculada.

O porta-voz da Agência Terraplanagem Global, o americano Chucky Oldman Dohavan, disse que o sacrifício dos cientistas não será esquecido, e que os seus nomes entram para a história.

- A morte destes três heróis, prova o que sempre tentamos mostrar ao mundo, que a Terra não é redonda, nem nunca foi. Vamos trabalhar agora no projeto "Ladder to no Man land", que visa construir a maior escada do mundo para que possamos descer da borda da Terra sem se estabacar, e explorar além da fronteira do vácuo. - disse Oldman Dohavan.

quinta-feira, 7 de março de 2019

Entrevista com Elda Miranda

Mais uma entrevistada chega as nossa páginas para enriquecer nossa série de entrevistas.
Elda Miranda é formada em pedagogia, especializada na área de educação especial desde 2004, e atua na educação municipal de Campo Grande desde 2010. Ela também já atuou na Apae, em Campo Grande.
Ela respondeu a questões ligadas a educação especial, e sua situação nas escolas públicas.


1- Como ter certeza de que um aluno com deficiência está apto a frequentar a escola?
Diante da lei, todos têm esse direito. Só em alguns casos é necessária uma autorização dos profissionais de saúde que atendem esse aluno. É dever da escola oferecer uma pessoa para ajudar na área pedagógica APE ( auxiliar pedagógica especializada ).




2- Quantos alunos com deficiência podem ser colocados na mesma sala?
De acordo com a lei, devem ser apenas 3 alunos especiais ( acompanhados de APE ) por sala. A lei Nº 8069 garante isso.




3- Quem tem deficiência aprende mesmo?
Sim, com certeza. O professor regente e a APE, devem caminhar juntos, promovendo o avanço e o progresso deste aluno, com ensino cooperativo entre estes dois profissionais, sendo adequadas as atividades propostas, de forma a alcançar o nível de compreensão do aluno.




4- Alunos com deficiência atrapalham a qualidade de ensino em uma turma?
No caso de deficiência de aprendizado, se o aluno tiver o acompanhamento de um professor APE, não atrapalha. Mas se não houver o APE, atrapalha e muito! Pode ocorrer de o professor regente não saiba como proceder, e acaba ignorando o aluno especial. Hoje, sabe-se que que todos aprendem de forma diferente e que uma atenção individual do professor a determinado estudante não prejudica o grupo. Daí a necessidade de se atender a todos de forma igualitária.




5-  Como preparar os funcionários para lidar com a inclusão?
É interessante que todos os funcionários e profissionais, recebam informações básicas sobre como proceder com as pessoas especiais. É importante que todos compreendam que o novo aluno com deficiência é parte integrante da comunidade escolar, precisando ter asseguradas as suas condições de acessibilidade a educação.




6- Como trabalhar com os alunos a chegada de colegas de inclusão?
Sempre envolver o aluno especial nas atividades a serem desenvolvidas, pois o objetivo é inserir este aluno no meio social e incentiva-lo, dando-lhe oportunidades de avançar em sua jornada.




7- Como lidar com a resistência de pais de alunos sem deficiência, em relação a sua presença na mesma sala de seus filhos?
A direção deve sempre abrir um espaço sobre este assunto nas pautas de reuniões, para ter esclarecimentos e informações sobre o assunto da inclusão nas escolas, tem lei para isto e deve ser respeitado o direito de todos.




8- Como lidar com a resistência dos outros alunos à presença do aluno com deficiência na sua sala?
O profissional responsável pela educação especial da escola, deve ser comunicado. E junto a coordenação e direção, conscientizar os demais sobre os direitos deste aluno e mostrar que lei garante ao aluno especial, o direito de estar na mesma escola, sem ser vitima de preconceito.




9- Como é feito para se identificar um aluno com deficiência e se comunicar os pais?
Para quem lida com esta clientela, é fácil identificar certos tipos de comportamentos e características apresentadas durante o período de observação da professora. Deve-se informar a coordenação da educação especial, para serem realizadas avaliações de exames clínicos e pedagógicos. A família será orientada para levar a criança às equipes das unidades especializadas, e seguir as orientações desta equipe. Os resultados já chegam à escola com os devidos laudos e o CID tipificando a deficiência.




10- Como lidar com pais que se recusam a aceitar que seus filhos necessitam de um acompanhamento especial?
A maioria aceita as situações e seguem as orientações destinadas a família. Mas é importante falar com firmeza e ensinar os caminhos para se buscar ajuda. Esclarecendo a essa família a necessidade e a importância de se fazer o tratamento a longo ou curto prazo, dependendo de cada deficiência. É importante a escola dar um suporte e apoio para estas famílias, acompanhamento contínuo e prosseguir o tratamento especializado.


Esta foi a nossa entrevista de hoje. Se você quer aprender um pouco mais sobre os desafios da educação especial, leia a obra Educação Especial e Autismo produzido pela SED de Mato Grosso do Sul.


Você de Campo Grande, pode acessar também:
Semed

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Série Histórica - Guerra de Canudos Parte 7: Vida Festiva

Canudos vista pela arte Naïf
A vida urbana organizou-se rapidamente. O consenso e a coesão garantidos pela adesão à pregação religiosa regiam as linhas gerais do comportamento da população. Ali não se bebia e não se jogava. Segundo Euclides da Cunha, certa vez o líder mandou destruir a machadadas os barris de um carregamento de aguardente chegado de Juazeiro, expulsando a seguir os tropeiros que haviam introduzido a mercadoria.Porém, temos referência à ingestão de bebidas alcoólicas no arraial.

A prostituição não era admitida. Entretanto, a vida sexual dos habitantes da aglomeração não era rígida. Como era e é normal entre as comunidades rurais brasileiras, o concubinato e as uniões livres eram tolerados e bastante difundidos.

Havia uma cadeia, conhecida como "poeira", cujo próprio nome indica que era pouco usada. Ela servia apenas para reprimir pequenas faltas. Quando ocorriam delitos e crimes mais graves, os responsáveis eram banidos da comunidade ou entregues às autoridades da comarca de Monte Santo. Como jamais se arrogou indevidamente poderes eclesiásticos, Antônio Conselheiro procedeu do mesmo modo em relação ao poder civil.

A vida cotidiana dos habitantes esteve profundamente associada ao sagrado.A comunidade era concebida como um espaço reservado aos eleitos de Deus. Uma terra em que corria um "rio de leite", com "barrancos de cuscuz de milho", isto é, um local de abundância e de felicidade.

O aspecto da Montanha de Piquaraça, a uns 100 quilômetros de Canudos, levou o missionário católico Apolônio de Todi, no final do Século XIX, a compará-la com o Calvário de Jerusalém, em que Jesus foi crucificado. Uma capela foi erigida nas proximidades e o local passou a ser chamado de Monte Santo. Como veremos, Monte Santo foi um dos principais pontos de apoio das expedições lançadas contra o arraial conselheirista.

De maneira similar, o nome Belo Monte não seria uma alusão ao Monte Tabor, onde, segundo a tradição popular cristã, Jesus iria retornar, antes do juízo final para juntar-se a seus seguidores fiéis e instaurar um reino de paz e prosperidade que duraria mil anos?

No interior de Belo Monte, os sertanejos expressavam de várias formas sua crença na intervenção das forças sobrenaturais. É crível que ao menos uma parte da comunidade vivesse aguardando ansiosamente o fim dos tempos, identificando em Antônio Conselheiro o profeta e o emissário direto da divindade. Viviam sob disciplina religiosa, acreditando que seriam punidos os que não cumprissem suas obrigações para com Deus.

Acreditava-se também, piamente, na intervenção sagrada por meio de milagres e prodígios realizados através de intermediários entre o Criador e os homens. A população atribuía ao Conselheiro esse papel de mediador. Ele era respeitado como líder, venerado como profeta, admirado e temido como milagreiro e taumaturgo.

Corriam, de boca em boca, narrativas relacionadas ao modo como Antônio Conselheiro realizara feitos miraculosos ou amaldiçoara os inimigos. Algumas foram incorporadas ao folclore nordestino, sendo transmitidas oralmente até os dias atuais.

Conta-se que Antônio Conselheiro, certa vez, diante de uma procissão, realizou o milagre de fazer verter água das paredes de uma igreja , ou que , ao tocar com seu cajado na ponta de uma madeira pesada, que seria empregada na construção da igreja, ela ficara leve tal qual uma pena. Houve até quem o considera-se santo idolatrando-o como se fosse um ente divino. Entretanto, segundo parece, Antônio Maciel desaprovava esses extremismos religiosos e místicos. Preferia ser chamado singelamente de "peregrino".

A religião cabocla, resultante de profundo sincretismo, congregava em si elementos do catolicismo popular português com crenças e rituais  indígenas e de origem africana. A exteriorização  da crença mesclava aspectos do culto católico ( preces, romarias e penitências ) com ritos, cerimônias talismãs e amuletos pertencentes ao universo mágico-religioso das tradições indígenas e africanas.

Uma das tradições indígenas verificadas em Belo Monte ocorria no mês de agosto, quando os descendentes de indígenas bebiam um licor feito de jurema ( planta nativa fortificante e de propriedades alucinógenas ), fumavam e bebiam cachaça, numa mostra da persistência dos rituais de cunho pagão. Essa tradição sugere que a interdição de bebidas alcoólicas não seria tão restrita.

Ao cair da tarde, todos os dias, as badaladas do sino da igreja anunciavam as rezas coletivas. Nestes momentos, era comum a separação da multidão em dois grupos: o dos homens e o das mulheres. Mesmo durante o período de conflito armado, essa atividade continuou a ser realizada habitualmente. Até o momento em que foi morto alvejado por balas do exército, Timotinho cumpria pontualmente a sua função de sineiro, chamando o povo para procissões e orações.

Após a destruição de Belo Monte, em meio às ruínas e aos corpos carbonizados dos cadáveres, soldados, jornalistas e espectadores puderam constatar o quanto o sentimento religioso orientara as ações dos moradores, encontrando nos escombros das moradias destroçadas variados tipos de rosários, crucifixos, imagens, amarrotadas de santos , figas, cartas santas, orações e benditos em caderninhos costurados e escritos com a caligrafia rudimentar dos semiletrados.

Mesmo os adversários declarados de Antônio Conselheiro não denunciaram qualquer forma de desvio da religião católica no interior da cidade. O frade italiano João Evangelista de Monte Marciano, destacado pelo arcebispo da Bahia, em 1895, para realizar uma missão espiritual naquele lugar, apesar de demonstrar grande antipatia pelos caboclos e por seu líder, atestou a retidão espiritual do povoado. O único erro apontado dizia respeito ao rigor excessivo na conduta moral dos fiéis e ao fato de que o velho peregrino substituía os representantes diretos da igreja.

O "beija" a que se referiu com desdém o emissário do arcebispo era uma cerimônia particular. Depois das rezas, das ladainhas ou dos terços e antes da pregação, Antônio Beatinho, um dos colaboradores diretos de Conselheiro, tomava um crucifixo nas mãos, e depois, pequenas estatuetas da virgem, de Cristo e dos santos, beijando com êxtase cada uma das imagens, sendo imitado pela multidão que, em fila, reverenciava os ícones sagrados.

Não se pense que a atmosfera de misticismo inibisse o espírito alegre e festivo do sertanejo. As pregações religiosas diárias eram momentos de congregação e socialização geral. Nem todos os habitantes eram ascetas e o próprio Conselheiro jamais obrigou alguém a frequentar as cerimônias. As mulheres em maior número, e os homens sinceramente tocados pela piedade compareciam frequentemente às rezas. Quanto aos demais, bastava viverem honestamente, cumprindo com seus deveres e obrigações, sem fazer mal ao próximo.

Em ocasiões festivas, o sacro misturava-se ao profano. O povoado era todo embandeirado, os sinos rebimbavam, realizavam-se disputas de tiro ao alvo. Nas vaquejadas periódicas, os cavaleiros e os vaqueiros demostravam habilidade e destreza no trato com as manadas no laço e na montaria.

Nas feiras e nos pontos de comércio, enquanto os negociantes e o povo comum vendiam e trocavam seus produtos, os cantadores improvisavam versinhos e cantigas, em que o líder máximo era geralmente enaltecido, e anunciava-se a derrota próxima dos adversários. mas sobrava também inspiração para os sentimentos de afeição.

Nas formas de sociabilidade permitidas e difundidas entre os caboclos, as festas em homenagem aos santos, e especialmente as festas natalinas, eram integradas por danças, música e muita comida. Em 1893, depois da conclusão dos trabalhos de restauração da igreja velha, a inauguração foi festejada com música e estouro de fogos de artifício. A queima de fogos nas festas de São João era das maiores da região. Mesmo em momentos menos solenes, por ocasião de casamentos e batizados, por exemplo, comemorava-se com tiros de espingarda, fogos, vivas e banquetes. Nas proximidades, abundavam o salitre e o enxofre necessários para a fabricação de pólvora.

Nada indicava a predominância de tristeza ou da circunspeção excessiva, parecendo infundadas as acusações de fanatismo dirigidas aos conselheiristas. pelo contrário, os dados gerais relativos aos costumes vigentes demonstravam de forma clara o quanto toda a comunidade participava do modo tradicional de vida do mundo sertanejo. A diferença fundamental era de que tal vivência ocorria de forma autônoma e independente das instituições representantes do poder. Belo Monte constituía um estado dentro do estado. Um estado rústico, informal, de fronteiras e cidadania indefinidas, mas capital conhecida: Belo Monte.

A figura carismática de Antônio Conselheiro sobressaía não apenas dentro ou nas imediações do arraial. Sua influência era reconhecida em toda a Bahia e mesmo em outros estados do Nordeste. A fama chegava a tal ponto que retratos seus eram expostos nas paredes de muitas casas em Salvador. A posição de liderança de número tão expressivo de seguidores garantiu-lhe uma autoridade reconhecida por fazendeiros e por políticos baianos influentes.

No arraial de Belo Monte, o velho peregrino, além de líder religioso, era o protetor pessoal de toda a coletividade. Antes mesmo da fundação do arraial, muitos pediam para que o homem santo servisse de padrinho para seus filhos, honrando-os com sua proteção.

Entre 1880 e 1892, somente na cidade de Itapicuru de Cima, Conselheiro batizou 92 crianças, indicando com madrinha a virgem Maria. Não parece absurdo supor que no arraial tal tipo de prática existisse. Neste ponto, o conselheiro assumia a posição de pai e protetor, costumeiramente desempenhada pelos coronéis. Essas relações e alianças interpessoais  desempenharam, certamente, um importante papel quando da resistência armada.

Conselheiro possuía enorme prestígio; por isso mesmo despertava a admiração, mas também a inimizade. Em pouco tempo, o arraial de Belo Monte tornou-se referencial para os pobres de todo o sertão. Tornou-se , ao mesmo tempo, uma ameaça real para os representantes do poder regional.

Com o aumento gradativo das pressões, o conflito violento parecia inevitável. Disso, os próprios conselheiristas pareciam ter ciência.
Este artigo tem como base bibliográfica a obra Belo Monte uma História da Guerra de Canudos, de José Rivair Macedo e Mário Maestri, da Editora Moderna que faz parte da Coleção Polêmica.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Série Histórica - Guerra de Canudos Parte 6: Casinhas de Barro

Em 1897, após a invasão pelas tropas governamentais, Alvim Martins Horcades, um dos integrantes da equipe de estudantes da Faculdade de Medicina da Bahia que prestou atendimento médico aos feridos nos momentos finais do combate, descreveu as moradias dos caboclos:

"Eram todas as casas construídas muito toscamente,
sendo as paredes feitas com paus grossos amarrados sob varinhas
e cobertas de barro branco.
Os tetos de algumas eram de folhas de icó e palhas cobertas de barro,
também branco com pedrinhas roliças.
Tinham apenas uma sala, um quarto e um compartimentozinho
que servia de cozinha e sala de jantar ao mesmo tempo.
Algumas havia que tinham espessas paredes,
porém arranjadas na ocasião da investida
feita pela força ( exército ),
pois constavam elas de uma sólida estacada
cheia de grandes pedras
que impediam a perfuração por qualquer projétil."

O mobiliário era rústico e reduzia-se a três ou quatro peças. Pedaços de lenha serviam de móveis improvisados. Suportes de madeira substituíam cadeiras e mesas. Havia ainda redes de dormir, banquetinhas, cestos de palha trançada, recipientes de couro ou cabaças para guardar água. Os alimentos eram preparados em fogueiras feitas de graveto, a céu aberto, em que três ou quatro pedras faziam as vezes de fogão. Comia-se em pratos ou recipientes fabricados de barro, madeira ou lata.

Os homens vestiam calças de algodão listrado, camisas grosseiras, gibão, coletes e jaquetas de couro curtido, e sandálias de couro cru. As camisas, os camisões e os vestidos das mulheres eram fabricados no próprio local, com fibras conseguidas nas vizinhanças, mas que também podiam ser adquiridas no comércio local.
Os homens de confiança de Antônio Conselheiro, integrantes da Guarda Católica, vestiam calças e camisas de algodão azul, cobriam cabeça com um gorro também azul e calçavam alpargatas. Enfim, vivia-se no desconforto e na rusticidade, sob padrões de sobrevivência bem conhecidos dos pobres do sertão. havia porém uma importante diferença. Em Belo Monte não existia fome e reinavam a solidariedade e a autonomia populares.

No centro do arraial, localizavam-se as edificações mais importantes: a igreja velha e a igreja nova ( inacabada ), as casas comerciais e as moradias dos personagens mais importantes do lugar. Eram habitações maiores, melhor aparelhadas e distintas das demais por serem cobertas com telhas, superiores nas dimensões às outras habitações. Destacavam-se ainda o cemitério planejado por Antônio Conselheiro e a casa fortificada ( o Santuário ), dentro da qual o Conselheiro permanecia retirado boa parte do tempo.

Era grande a preocupação do líder religioso com a instrução dos moradores. Antônio Conselheiro, dando continuidade ao trabalho pedagógico iniciado décadas antes no Ceará, mandou construir escolas em Belo Monte, dirigindo-as pessoalmente. Mandou trazer um professor da cidade de Souré, chamado Moreira, que morreu pouco antes da deflagração da guerra. Para substituí-lo, foi contratada Maria Francisca de Vasconcelos, uma jovem de 22 anos, que estudara na Escola Normal de Salvador, proibida pela família de casar-se com um jovem trabalhador de origem humilde, fugira com ele, indo morar, inicialmente, em Souré, e depois, em Belo Monte.

Poucos e estreitíssimos becos entrelaçados separavam os casebres. A rua principal, situada no centro da comunidade, chamava-se Campo Alegre. Outros becos ou ruelas ( a dos Caboclos, da Caridade, do Cemitério, da Professora ) indicavam pontos significativos para os habitantes. Ao contrário, a rua dos Negros assinalava uma ocupação populacional étnica bem delineada no interior do reduto sertanejo.

O zoneamento urbano, o material com que era construída, tudo fazia com que a povoação quase se confundisse e se mimetizasse com o meio de onde se levantava. A distribuição não-simétrica das casas e a comunicação feita por meio dos pátios e caminhos irregulares chocavam-se com o urbanismo racionalista das cidades litorâneas que seguiam o modelo urbanístico europeu. Ao contrário, elas lembravam importantes centros urbanos do Sudão Ocidental, na África, onde as cidades eram muitas vezes formadas por vilas que se aglutinavam, metamorfoseando-se em bairros.

A configuração do espaço ocupado de Belo Monte certamente provocava um impacto visual nos espectadores acostumados com as aglomerações no estilo ocidental do litoral. Um deles, o frei João Evangelista do Monte Marciano, chegou a compará-la a um "acampamento de beduínos", registrando seu profundo preconceito com relação às populações e à cultura sertaneja.

Nos pontos comerciais e na feira ao ar livre realizada semanalmente, vendiam-se e compravam-se os gêneros básicos de consumo da região, os gêneros alimentícios ( queijo de cabra, goiabada, cebola, alho, rapadura, farinha, carne-seca ), utensílios e instrumentos domésticos ( cestas, ferramentas ) e até mesmo armas. A moeda utilizada no Império e na República circulava livremente em Belo Monte.

A quantidade de dinheiro jamais foi expressiva. As condições gerais de vida eram precárias e era baixo o nível de desenvolvimento da economia monetária na região. Comumente, os sertanejos realizavam seus intercâmbios pela troca simples e direta, sem utilizarem a moeda.

Com o tempo, Antônio Vila Nova, o mais importante comerciante conselheirista, criou um vale impresso amplamente aceito nas localidades vizinhas e que acabou substituindo o dinheiro nas trocas. também neste caso, o arraial de Belo Monte ofereceu alternativas para seus moradores, que se tornavam autônomos perante o sistema dominante e a sociedade de classes da época. É importante lembrar que o privilégio da emissão de moeda é um monopólio dos estados independentes.

Do mesmo modo, a vida econômica regia-se por princípios diferenciados dos tradicionais. No momento em que ingressavam na cidade os recém-chegados doavam "parte" de seus bens a uma caixa comum. Isso não quer dizer que a noção de propriedade fora abolida. Mantinha-se o direito de propriedade sobre a produção familiar, alguns bens, e determinados integrantes vinculados ao comércio acumularam riquezas.

A existência de um fundo comum garantia a manutenção da parcela da população que não tinha meios próprios para subsistir dignamente e financiava a estrutura administrativa rudimentar do arraial. Em vez de socialismo ou igualitarismo absoluto, incompatíveis com o próprio nível de desenvolvimento material e espiritual daquele grupo, é preferível pensar na existência de um comunitarismo fundado na ideia da solidariedade coletiva.

Nas imediações do povoado, praticava-se a caça e cultivavam-se gêneros alimentícios ( milho, feijão, batata, batata-doce, abóbora, melancia, melão, cana-de-açúcar ). Abundava nas proximidades do rio Vaza-Barris o umbuzeiro, cujo fruto era bastante apreciado por conter bastante líquido. Havia ainda mangabeiras e várias espécies de palmito e coqueiro, que serviam de "celeiro" para os habitantes.

O trabalho agrícola baseava-se na exploração comunitária do solo por meio das mutirões ( realizados quando da semeadura, na limpeza da roça, no plantio da colheita ). Essa forma de cooperação foi elemento fundamental durante a existência da comunidade. Ela permitiu que cada indivíduo participasse diretamente na manutenção da coletividade, garantindo condições mínimas de sobrevivência para todos.

Somado ao trabalho realizado no arraial, os moradores prestavam serviços nas imediações. Dando mostras de manter boa relação com pelo menos determinados fazendeiros, Antônio Conselheiro incentivava os integrantes de seu rebanho a venderem a força de trabalho nas propriedades rurais das vizinhanças em troco de pagamento diário. Parte dessa renda terminaria na caixa comum.

Os conselheiristas contavam com a entrega de bens por parte de admiradores e constantemente solicitavam a doação de mantimentos e de equipamentos ( este últimos empregados na construção da igreja nova ) aos comerciantes e fazendeiros abastados da região. Por motivos óbvios, os proprietários certamente contribuíam prontamente com o pedido.

A pecuária representou a principal atividade econômica do arraial. Além da criação de gado bovino e equino, Belo Monte possuiu grande rebanho de cabras e bodes, comerciando largamente os produtos deles derivados nas vilas e cidades próximas. As peles eram curtidas com o sal e o sumo da casca da planta chamada favela. Em seguida eram enviadas a Juazeiro, cidade próxima do rio São Francisco, para serem transportadas de trem até Salvador. Dali eram exportadas até mesmo para o exterior.

Na beira do rio Vaza-Barris, existiam quatro curtumes e pelo menos três casas comerciais negociavam exclusivamente com o couro, que se tornou a mercadoria mais valiosa nos intercâmbios econômicos realizados por negociantes como Joaquim Macambira, homem bem relacionado fora do povoado. Longe, pois, de representar a estagnação, o atraso e o isolamento, a comunidade de Belo Monte, integrava-se às condições do sertão, dando mostras de grande vitalidade e demonstrando amplas possibilidades de articulação com os demais povoados e aglomerações locais.
Este artigo tem como base bibliográfica a obra Belo Monte uma História da Guerra de Canudos, de José Rivair Macedo e Mário Maestri, da Editora Moderna que faz parte da Coleção Polêmica.

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Série Histórica - Guerra de Canudos Parte 5: A Comunidade Mística - Terra dos Justos

O Arraial de Belo Monte transformou-se em uma espécie de "terra prometida", à margem dos males da terra, para os adeptos do líder religioso. A proposta reformista de Antônio Conselheiro ultrapassou as fronteiras das classes subalternas, como é comum nessas situações. Há registros de pequenos, médios e grandes fazendeiros vendendo suas propriedades e se transferindo para o interior do arraial.

A fama de Antônio Conselheiro, crescente no decurso dos vinte anos de peregrinação pelos povoados, vilarejos e cidades, atraiu pessoas de inúmeras comunidades rurais baianas e de outros estados nordestinos. Localidades como Queimadas, Itapicuru de Cima foram abandonadas por centenas de moradores que rumaram para a cidade santa.

Para lá foram populares de de Inhambupe, Tucano, Cumbe, Bom Conselho, Natuba, Maçaracá, Monte Santo, Uauá, Entre Rios, Mundo Novo, Jacobina, Itabaiana, e outros núcleos populacionais distantes, dos estados do Sergipe e do Ceará.

Pelo alto das colinas, estradas e caminhos, deslocavam-se grupos de crentes em busca da famosa cidade. Pessoas traziam em macas, parentes doentes em busca de milagres. Vinham pequenos criadores, vaqueiros, mães de família e seus filhos, viúvas e pessoas sem eira nem beira. Pelas estradas de Calumbi, Maçaracá, Jeremoabo, e Uauá, transportavam-se mantimentos enviados de cidades como Vila Nova da Rainha e Alagoinhas, pelos admiradores do pregador.

O enorme contingente populacional foi responsável direto pela ampliação na dimensão territorial do sítio original da fazenda de Canudos. A área ocupada pelos conselheiristas em Belo Monte passou a ser aproximadamente 53 hectares. Em 1895, a população oscilava entre 5 e 8 mil habitantes. Em 1897, uma comissão de engenheiros militares avaliou a existência de mil casas, o que corresponderia a uma população de aproximadamente 26 mil habitantes.

Em 1897, o capitão Manuel Benício, correspondente do Jornal do Comércio, comentava a esse respeito:

"As casinhas vermelhas cobertas de barro
da mesma cor salpicavam a esplanada
desordenadamente em número de mil,
pouco mais ou menos."

Euclides da Cunha estimava a existência de 2 mil casas. Para Marco Antônio Villa, o número apresentado pelo exército é exagerado. Com a informação, a oficialidade buscava justificar as derrotas seguidas das forças armadas durante a guerra contra os caboclos.

Os moradores do arraial pertenciam a grupos étnicos e a camadas sociais bastante heterogêneos. os registros e os testemunhos contemporâneos indicam a existência de indivíduos brancos e negros, mas sobretudo mestiços. Ali se encontravam em número maior, pardos, cafuzos e mamelucos. esses traços, aliás, correspondiam à composição genérica do processo de formação étnica dos sertões nordestinos. O caboclo constituía o resultado do complexo amálgama iniciado com a colonização brasileira. Constituía a prefiguração do brasileiro tipo, negada, pois temida e abominada, por Euclides da Cunha, em Os Sertões: Campanha de Canudos.

É igualmente atestada a presença indígena em Belo Monte. Muitos dos populares que foram para o arraial tinham nas veias o sangue nativo da região. Ela pode ser confirmada na predominância de vocábulos de origem indígena em denominações geográficas como Pambu, Patamoté, Uauá, Bendengó, Cumbe, Cocorobó, Xiquexique, Jequié, Catolé e outras.

Há fortes indícios da existência de índios não-miscigenados no arraial. Algumas tradições dos caimbés de Maçaracá e dos quiriris de Mirandela subsistiram na comunidade, tendo lá inclusive morrido seus dois últimos pajés. Entre os vestígios encontrados no sítio arqueológico há instrumentos e objetos tipicamente indígenas.

Pesquisas recentes demonstram cada vez mais a participação de negros e ex-escravos na comunidade, entre os conselheiristas e entre os chefes da resistência. Belo Monte recebeu todos os refugiados e sofridos, sem distinção.

Antes mesmo de se estabelecer em Belo Monte, Antônio Conselheiro era seguido ( ou ouvido ) por cativos e negros forros.

Nas proximidades de Canudos, existiram redutos de escravos foragidos. No Século XIX, havia quilombos nas cercanias de Jeremoabo e Monte Santo, localidades vizinhas do arraial. Ex-escravos, negros livres e pardos, abandonados à própria sorte após a abolição, encontraram um refúgio em Belo Monte.

Grupos de ex-escravos instalaram-se no arraial, ocupando uma área conhecida como Rua dos Negros. Homens negros desempenharam papéis de comando ( entre os quais o célebre Pajeú ) na resistência militar conselheirista.

Entretanto, índios e negros puros constituíam a minoria da população. A historiadora Yara Bandeira de Ataíde afirma que apenas 4,95% dos habitantes eram negros puros.

A maioria esmagadora dos conselheiristas podiam ser chamados de "morenos acaboclados", mulatos, "escuros" e caboclos, revelando os caracteres físicos típicos do sertão nordestino: cabelo corredio duro ou levemente ondulado, estatura mediana ou baixa.

Quanto à origem social dos conselheiristas, parece não haver dúvida de que em sua maioria, provinham dos estratos mais humildes da sociedade da época. Havia comerciantes e pessoas de posses em Belo Monte. Porém, constituíam parcela inexpressiva. Homens como Antônio da Mota, Joaquim Macambira e Antônio Vila Nova tornaram-se chefes militares ou administrativos e ativos negociantes.

Havia professores, enfermeiros e um médico no arraial. Mas a maior parte dos habitantes desempenhava atividades vinculadas aos ofícios artesanais: mestres-de-obras, pedreiros, pequenas vendedoras, cozinheiras, etc. A comunidade dava abrigo aos deserdados, recebendo um grande número de camponeses analfabetos; pastores e vaqueiros das caatingas; e fugitivos e valentões locais, hábeis no manejos das armas, que viriam a ser designados, de forma pejorativa de jagunços.

A distribuição e a organização do povoado era igual a das outras comunidades sertanejas vizinhas. Porém, no arraial, o forte crescimento populacional determinou uma apropriação desorganizada do espaço habitado. Em geral, as casas construídas possuíam 40 metros quadrados de área. Eram feitas de barro e de madeira, com dois ou três compartimentos e cobertas com folhas de plantas locais. Possuíam uma porta e pequenas janelas.
Este artigo tem como base bibliográfica a obra Belo Monte uma História da Guerra de Canudos, de José Rivair Macedo e Mário Maestri, da Editora Moderna que faz parte da Coleção Polêmica.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Série Histórica - Guerra de Canudos Parte 4: A Comunidade Mística - A Situação Geral

Em 1983, quando Antônio Conselheiro conduziu seus discípulos para Canudos, o povoado era pequeno, perdendo-se no meio dos vilarejos levantados em torno das inúmeras fazendas baianas. Porém, em um período de quatro anos, tornava-se um dos maiores núcleos populacionais do estado.

Com a chegada dos conselheiristas, o arraial foi renomeado, passando a ser chamado de Belo Monte. O novo nome deu um novo sentido a comunidade. O nome de Belo Monte simbolizava a revalorização geográfica do local. Enquanto Canudos lembrava decadência e abandono, Belo Monte apontava o lugar de encontro dos eleitos com uma vida melhor.

Contrastando com a prosperidade aparente das cidades beneficiadas pelas plantações de cana-de-açúcar e cacau, situadas mais para o litoral, a paisagem do interior baiano denotava a pobreza e o abandono, denunciando as profundas desigualdades entre as áreas costeiras e o sertão.

As condições de vida miseráveis nos pequenos povoados evidenciavam a estagnação econômica e as dificuldades enormes vividas pelos sertanejos.

Nas comunidades compostas algumas por dezenas ou poucas centenas de casas em torno de uma rua principal, alguns pontos comerciais e uma capela ou igreja, agrupavam-se moradores pobres envolvidos com o pequeno comércio, com o artesanato rústico, com o trabalho da terra nas fazendas circunvizinhas.

Canudos não era exceção. Surgido no Século XVII, o vilarejo desenvolvera-se em torno de uma fazenda típica. O nome do povoado saíra de uma das plantas da região: os canudos-de-pito. Para alguns estudiosos, em 1893, Canudos contava com pouco mais de 50 casebres erigidos nas imediações de uma velha igreja, de uma casa-grande e de alguns pontos comerciais. Era habitada por uns 250 moradores, envolvidos com as habituais atividades de subsistência das comunidades rurais.

Sua localização geográfica era típica do sertão. Situado a aproximadamente 270 quilômetros longe da capital, distanciado das planícies costeiras, o povoado era cercado por grandes irregularidades do relevo, destacando-se grande serras e montanhas, como a Serra Grande, a de Anastásio, a de Cambaio, a de Coxomongó, a de Calumbi, e a de Aracati. Na proximidade do arraial estava o Morro da Favela.

Favela é o nome de um vegetal existente no sertão baiano.

No sopé do morro, os conselheiristas montaram suas residências. Foram essas cabanas de barro e taipa que deram nome as casas miseráveis dos nordestinos que a partir do início do Século XX, migraram para o Rio de Janeiro.

O solo da região era seco e pedregoso. A vegetação era de árvores, arbustos e leguminosas típicos do semi-árido. Nos campos gerais, nos tabuleiros, nas caatingas, nas matas e nos serrados agrestes germinavam macegas, bromélias, macambiras, umbuzeiros, catingueiras, alecrins-dos-tabuleiros, caroás, e gravatás, adaptados à falta de água. era uma paisagem triste, rude, monótona, características de lugares de temperaturas elevadas e clima seco.

Nas proximidades de Canudos, corriam os rios Itapicuru e o Vaza-Barris, cujo nível das águas mantinha-se apenas no período das chuvas. Durante o resto do ano, podia ser cruzado a pé. Apenas alguns depósitos de água resistiam. A cidade sertaneja desenvolveu-se justamente na parte mais larga do rio, beneficiando-se das águas de suas cheias.

No sertão a época das chuvas, geralmente é, entre dezembro e maio. Os sertanejos chamam "trovoadas" os temporais rápidos e violentos, essenciais para a revitalização dos leitos de rios e riachos, e o acúmulo de água em tanques e cacimbas. Durante o período de estiagem, quente e seco, eles fornecem o único estoque de água.

Havia também, como há hoje, o flagelo das secas. Houve um ciclos de secas no sertão nordestino que assolou periodicamente as populações rurais, desde meados do Século XVIII. Nesses momentos, além do martírio provocado pela carestia e pela fome, havia o desenraizamento, as migrações. A seca de 1877-1879, uma das piores do Século XIX, expulsou multidões de sertanejos em direção às cidades do litoral e às regiões Norte e Sudeste.

Somente no Ceará, durante a seca de 1877, teriam morrido em torno de 64 mil pessoas.

Os corpos malnutridos, as péssimas condições higiênicas, favoreciam as doenças infecto-contagiosas. Era enorme o número de vítimas de epidemias de varíola, cólera e catapora. Entre 1855 e 1857, ao menos 29 mil pessoas morreram vítimas do cólera na Bahia. Na década de 1880, a vacinação contra a catapora foi suspensa, pela falta de vacinas.

Comissões de assistência distribuíram roupas, suprimentos e sementes para flagelados. As embarcações ferroviárias ou fluviais transportavam carregamentos de emergência com alimentos ( carne-seca, mandioca, milho, feijão ), sempre insuficientes para o exército de desvalidos que se aglomerava nas ruas e nas praças das cidades.

A fome, a desnutrição e a exposição às doenças não se restringiam aos períodos de crise aguda ou de graves oscilações do clima. As condições de vida dos sertanejos pobres eram bastante precárias, tornando-os vítimas de diferentes doenças.

Em meados do Século XIX, menos de 5% da população rural possuía terras. Paralelamente ao processo de crise do sistema escravista, diversas leis procuraram regular as formas de acesso à propriedade, proibindo a distribuição gratuita de terras às comunidades necessitadas, restringindo as possibilidades de aquisição pelas camadas pobres e facilitando a concentração fundiária das oligarquias locais.

Em 1895, o governo baiano promulgou a Lei nº 86, que estabelecia como terras devolutas as terras que não tinham uso público, as de domínio particular sem título legítimo, as posses que não se fundassem em documentos legítimos, e os terrenos de aldeias indígenas extintas por lei pelo abandono dos habitantes.

Em 1897, a Lei nº 198, declarava terras devolutas as que não tivessem título,legal e as que não fossem legalizadas em tempo hábil.

Ambas as leis, tornaram frágeis a situação dos ocupantes pobres de terras familiares não-comprovadas por documentos, que ficavam sujeitos a perdê-las para grandes fazendeiros.
Ao mesmo tempo, forçavam os posseiros a permanecer atrelados e dependentes aos personagens politicamente influentes.
Este artigo tem como base bibliográfica a obra Belo Monte uma História da Guerra de Canudos, de José Rivair Macedo e Mário Maestri, da Editora Moderna que faz parte da Coleção Polêmica.