terça-feira, 11 de setembro de 2018

Série Histórica - Guerra de Canudos Parte 5: A Comunidade Mística - Terra dos Justos

O Arraial de Belo Monte transformou-se em uma espécie de "terra prometida", à margem dos males da terra, para os adeptos do líder religioso. A proposta reformista de Antônio Conselheiro ultrapassou as fronteiras das classes subalternas, como é comum nessas situações. Há registros de pequenos, médios e grandes fazendeiros vendendo suas propriedades e se transferindo para o interior do arraial.

A fama de Antônio Conselheiro, crescente no decurso dos vinte anos de peregrinação pelos povoados, vilarejos e cidades, atraiu pessoas de inúmeras comunidades rurais baianas e de outros estados nordestinos. Localidades como Queimadas, Itapicuru de Cima foram abandonadas por centenas de moradores que rumaram para a cidade santa.

Para lá foram populares de de Inhambupe, Tucano, Cumbe, Bom Conselho, Natuba, Maçaracá, Monte Santo, Uauá, Entre Rios, Mundo Novo, Jacobina, Itabaiana, e outros núcleos populacionais distantes, dos estados do Sergipe e do Ceará.

Pelo alto das colinas, estradas e caminhos, deslocavam-se grupos de crentes em busca da famosa cidade. Pessoas traziam em macas, parentes doentes em busca de milagres. Vinham pequenos criadores, vaqueiros, mães de família e seus filhos, viúvas e pessoas sem eira nem beira. Pelas estradas de Calumbi, Maçaracá, Jeremoabo, e Uauá, transportavam-se mantimentos enviados de cidades como Vila Nova da Rainha e Alagoinhas, pelos admiradores do pregador.

O enorme contingente populacional foi responsável direto pela ampliação na dimensão territorial do sítio original da fazenda de Canudos. A área ocupada pelos conselheiristas em Belo Monte passou a ser aproximadamente 53 hectares. Em 1895, a população oscilava entre 5 e 8 mil habitantes. Em 1897, uma comissão de engenheiros militares avaliou a existência de mil casas, o que corresponderia a uma população de aproximadamente 26 mil habitantes.

Em 1897, o capitão Manuel Benício, correspondente do Jornal do Comércio, comentava a esse respeito:

"As casinhas vermelhas cobertas de barro
da mesma cor salpicavam a esplanada
desordenadamente em número de mil,
pouco mais ou menos."

Euclides da Cunha estimava a existência de 2 mil casas. Para Marco Antônio Villa, o número apresentado pelo exército é exagerado. Com a informação, a oficialidade buscava justificar as derrotas seguidas das forças armadas durante a guerra contra os caboclos.

Os moradores do arraial pertenciam a grupos étnicos e a camadas sociais bastante heterogêneos. os registros e os testemunhos contemporâneos indicam a existência de indivíduos brancos e negros, mas sobretudo mestiços. Ali se encontravam em número maior, pardos, cafuzos e mamelucos. esses traços, aliás, correspondiam à composição genérica do processo de formação étnica dos sertões nordestinos. O caboclo constituía o resultado do complexo amálgama iniciado com a colonização brasileira. Constituía a prefiguração do brasileiro tipo, negada, pois temida e abominada, por Euclides da Cunha, em Os Sertões: Campanha de Canudos.

É igualmente atestada a presença indígena em Belo Monte. Muitos dos populares que foram para o arraial tinham nas veias o sangue nativo da região. Ela pode ser confirmada na predominância de vocábulos de origem indígena em denominações geográficas como Pambu, Patamoté, Uauá, Bendengó, Cumbe, Cocorobó, Xiquexique, Jequié, Catolé e outras.

Há fortes indícios da existência de índios não-miscigenados no arraial. Algumas tradições dos caimbés de Maçaracá e dos quiriris de Mirandela subsistiram na comunidade, tendo lá inclusive morrido seus dois últimos pajés. Entre os vestígios encontrados no sítio arqueológico há instrumentos e objetos tipicamente indígenas.

Pesquisas recentes demonstram cada vez mais a participação de negros e ex-escravos na comunidade, entre os conselheiristas e entre os chefes da resistência. Belo Monte recebeu todos os refugiados e sofridos, sem distinção.

Antes mesmo de se estabelecer em Belo Monte, Antônio Conselheiro era seguido ( ou ouvido ) por cativos e negros forros.

Nas proximidades de Canudos, existiram redutos de escravos foragidos. No Século XIX, havia quilombos nas cercanias de Jeremoabo e Monte Santo, localidades vizinhas do arraial. Ex-escravos, negros livres e pardos, abandonados à própria sorte após a abolição, encontraram um refúgio em Belo Monte.

Grupos de ex-escravos instalaram-se no arraial, ocupando uma área conhecida como Rua dos Negros. Homens negros desempenharam papéis de comando ( entre os quais o célebre Pajeú ) na resistência militar conselheirista.

Entretanto, índios e negros puros constituíam a minoria da população. A historiadora Yara Bandeira de Ataíde afirma que apenas 4,95% dos habitantes eram negros puros.

A maioria esmagadora dos conselheiristas podiam ser chamados de "morenos acaboclados", mulatos, "escuros" e caboclos, revelando os caracteres físicos típicos do sertão nordestino: cabelo corredio duro ou levemente ondulado, estatura mediana ou baixa.

Quanto à origem social dos conselheiristas, parece não haver dúvida de que em sua maioria, provinham dos estratos mais humildes da sociedade da época. Havia comerciantes e pessoas de posses em Belo Monte. Porém, constituíam parcela inexpressiva. Homens como Antônio da Mota, Joaquim Macambira e Antônio Vila Nova tornaram-se chefes militares ou administrativos e ativos negociantes.

Havia professores, enfermeiros e um médico no arraial. Mas a maior parte dos habitantes desempenhava atividades vinculadas aos ofícios artesanais: mestres-de-obras, pedreiros, pequenas vendedoras, cozinheiras, etc. A comunidade dava abrigo aos deserdados, recebendo um grande número de camponeses analfabetos; pastores e vaqueiros das caatingas; e fugitivos e valentões locais, hábeis no manejos das armas, que viriam a ser designados, de forma pejorativa de jagunços.

A distribuição e a organização do povoado era igual a das outras comunidades sertanejas vizinhas. Porém, no arraial, o forte crescimento populacional determinou uma apropriação desorganizada do espaço habitado. Em geral, as casas construídas possuíam 40 metros quadrados de área. Eram feitas de barro e de madeira, com dois ou três compartimentos e cobertas com folhas de plantas locais. Possuíam uma porta e pequenas janelas.
Este artigo tem como base bibliográfica a obra Belo Monte uma História da Guerra de Canudos, de José Rivair Macedo e Mário Maestri, da Editora Moderna que faz parte da Coleção Polêmica.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Série Histórica - Guerra de Canudos Parte 4: A Comunidade Mística - A Situação Geral

Em 1983, quando Antônio Conselheiro conduziu seus discípulos para Canudos, o povoado era pequeno, perdendo-se no meio dos vilarejos levantados em torno das inúmeras fazendas baianas. Porém, em um período de quatro anos, tornava-se um dos maiores núcleos populacionais do estado.

Com a chegada dos conselheiristas, o arraial foi renomeado, passando a ser chamado de Belo Monte. O novo nome deu um novo sentido a comunidade. O nome de Belo Monte simbolizava a revalorização geográfica do local. Enquanto Canudos lembrava decadência e abandono, Belo Monte apontava o lugar de encontro dos eleitos com uma vida melhor.

Contrastando com a prosperidade aparente das cidades beneficiadas pelas plantações de cana-de-açúcar e cacau, situadas mais para o litoral, a paisagem do interior baiano denotava a pobreza e o abandono, denunciando as profundas desigualdades entre as áreas costeiras e o sertão.

As condições de vida miseráveis nos pequenos povoados evidenciavam a estagnação econômica e as dificuldades enormes vividas pelos sertanejos.

Nas comunidades compostas algumas por dezenas ou poucas centenas de casas em torno de uma rua principal, alguns pontos comerciais e uma capela ou igreja, agrupavam-se moradores pobres envolvidos com o pequeno comércio, com o artesanato rústico, com o trabalho da terra nas fazendas circunvizinhas.

Canudos não era exceção. Surgido no Século XVII, o vilarejo desenvolvera-se em torno de uma fazenda típica. O nome do povoado saíra de uma das plantas da região: os canudos-de-pito. Para alguns estudiosos, em 1893, Canudos contava com pouco mais de 50 casebres erigidos nas imediações de uma velha igreja, de uma casa-grande e de alguns pontos comerciais. Era habitada por uns 250 moradores, envolvidos com as habituais atividades de subsistência das comunidades rurais.

Sua localização geográfica era típica do sertão. Situado a aproximadamente 270 quilômetros longe da capital, distanciado das planícies costeiras, o povoado era cercado por grandes irregularidades do relevo, destacando-se grande serras e montanhas, como a Serra Grande, a de Anastásio, a de Cambaio, a de Coxomongó, a de Calumbi, e a de Aracati. Na proximidade do arraial estava o Morro da Favela.

Favela é o nome de um vegetal existente no sertão baiano.

No sopé do morro, os conselheiristas montaram suas residências. Foram essas cabanas de barro e taipa que deram nome as casas miseráveis dos nordestinos que a partir do início do Século XX, migraram para o Rio de Janeiro.

O solo da região era seco e pedregoso. A vegetação era de árvores, arbustos e leguminosas típicos do semi-árido. Nos campos gerais, nos tabuleiros, nas caatingas, nas matas e nos serrados agrestes germinavam macegas, bromélias, macambiras, umbuzeiros, catingueiras, alecrins-dos-tabuleiros, caroás, e gravatás, adaptados à falta de água. era uma paisagem triste, rude, monótona, características de lugares de temperaturas elevadas e clima seco.

Nas proximidades de Canudos, corriam os rios Itapicuru e o Vaza-Barris, cujo nível das águas mantinha-se apenas no período das chuvas. Durante o resto do ano, podia ser cruzado a pé. Apenas alguns depósitos de água resistiam. A cidade sertaneja desenvolveu-se justamente na parte mais larga do rio, beneficiando-se das águas de suas cheias.

No sertão a época das chuvas, geralmente é, entre dezembro e maio. Os sertanejos chamam "trovoadas" os temporais rápidos e violentos, essenciais para a revitalização dos leitos de rios e riachos, e o acúmulo de água em tanques e cacimbas. Durante o período de estiagem, quente e seco, eles fornecem o único estoque de água.

Havia também, como há hoje, o flagelo das secas. Houve um ciclos de secas no sertão nordestino que assolou periodicamente as populações rurais, desde meados do Século XVIII. Nesses momentos, além do martírio provocado pela carestia e pela fome, havia o desenraizamento, as migrações. A seca de 1877-1879, uma das piores do Século XIX, expulsou multidões de sertanejos em direção às cidades do litoral e às regiões Norte e Sudeste.

Somente no Ceará, durante a seca de 1877, teriam morrido em torno de 64 mil pessoas.

Os corpos malnutridos, as péssimas condições higiênicas, favoreciam as doenças infecto-contagiosas. Era enorme o número de vítimas de epidemias de varíola, cólera e catapora. Entre 1855 e 1857, ao menos 29 mil pessoas morreram vítimas do cólera na Bahia. Na década de 1880, a vacinação contra a catapora foi suspensa, pela falta de vacinas.

Comissões de assistência distribuíram roupas, suprimentos e sementes para flagelados. As embarcações ferroviárias ou fluviais transportavam carregamentos de emergência com alimentos ( carne-seca, mandioca, milho, feijão ), sempre insuficientes para o exército de desvalidos que se aglomerava nas ruas e nas praças das cidades.

A fome, a desnutrição e a exposição às doenças não se restringiam aos períodos de crise aguda ou de graves oscilações do clima. As condições de vida dos sertanejos pobres eram bastante precárias, tornando-os vítimas de diferentes doenças.

Em meados do Século XIX, menos de 5% da população rural possuía terras. Paralelamente ao processo de crise do sistema escravista, diversas leis procuraram regular as formas de acesso à propriedade, proibindo a distribuição gratuita de terras às comunidades necessitadas, restringindo as possibilidades de aquisição pelas camadas pobres e facilitando a concentração fundiária das oligarquias locais.

Em 1895, o governo baiano promulgou a Lei nº 86, que estabelecia como terras devolutas as terras que não tinham uso público, as de domínio particular sem título legítimo, as posses que não se fundassem em documentos legítimos, e os terrenos de aldeias indígenas extintas por lei pelo abandono dos habitantes.

Em 1897, a Lei nº 198, declarava terras devolutas as que não tivessem título,legal e as que não fossem legalizadas em tempo hábil.

Ambas as leis, tornaram frágeis a situação dos ocupantes pobres de terras familiares não-comprovadas por documentos, que ficavam sujeitos a perdê-las para grandes fazendeiros.
Ao mesmo tempo, forçavam os posseiros a permanecer atrelados e dependentes aos personagens politicamente influentes.
Este artigo tem como base bibliográfica a obra Belo Monte uma História da Guerra de Canudos, de José Rivair Macedo e Mário Maestri, da Editora Moderna que faz parte da Coleção Polêmica.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Série Histórica - Guerra de Canudos Parte 3: O Conselheiro e a República

Dois acontecimentos, mudaram o rumo da história do Brasil no fim do século XIX. Os dois fatos pesaram no destino de Antônio Conselheiro e seus adeptos.

O primeiro, foi o fim da escravidão, com a assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888. O segundo foi a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889.

A abolição foi a conclusão do sistema escravista, que teve inicio na colonização portuguesa em 1532. Com o fim do tráfico internacional de escravos ( proibido em 1850 ), disparou o preço de trabalhadores escravizados. A população servil não se reproduzia, muito menos se expandia, por causa das difíceis condições de vida e de trabalho. Desde os meados do século XIX, escravos passaram a ser vendidos do Sul, Oeste e Nordeste, para as fazendas cafeicultoras do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo.

Imigrantes europeus foram trazidos a partir de 1880, para trabalhar como colonos na produção cafeicultora. No Nordeste, a mão escrava foi mantida até os últimos momentos da monarquia, apesar de governantes e proprietários terem tentado alternativas para substituir os escravos.

Sobretudo na Bahia, havia preocupação com a escassez de mão-de-obra. Além da crise gerada pela abolição, as secas, a fome e o monopólio de terras, causavam um decréscimo de população potencialmente trabalhadora. A posse latifundiária da terra era um freio ao desenvolvimento de uma economia camponesa autônoma. Isso causava uma intensa migração de sertanejos para Salvador ou para o eixo Rio-São Paulo.

O governo baiano incentivava sem obter sucesso a contratação de chineses, japoneses e europeus. Algumas colônias de alemães, suíços e irlandeses foram criadas no início do século, mas não prosperaram. Em 1859, a experiência com imigrantes italianos fracassou igualmente. Vantagens oferecidas a imigrantes dispostos a fundar núcleos coloniais não saiam do papel.

As tentativas da elite rural baiana em introduzir mão-de-obra estrangeira, demonstra o preconceito que existia em relação ao homem sertanejo, uma vez que apesar das dificuldades sociais e de vida, ainda representava um grande contingente populacional.

A população sertaneja pode ter visto a libertação da população escravizada como uma vontade da família imperial, o que fortaleceu a visão popular do imperador como "pai dos desvalidos". A população sertaneja não conseguia perceber a ligação entre a ordem escravista e a ordem monárquica.

Antônio Conselheiro era partidário das ideias abolicionistas. Um escravo fugitivo foi encontrado entre seus seguidores quando de sua prisão em 1876. Em suas Prédicas, redigidas mais tarde, ele apresentaria a abolição como um ato da vontade divina, realizada por um ato imperial.

"Quantos morreram debaixo do açoite por faltas que cometiam!
Alguns quase nus, oprimidos de fome e de pesado trabalho!
E que direis daqueles que não suportavam com paciência tanta crueldade 
e no furor ou no excesso de sua infeliz estrela se matavam!
Chegou enfim o dia em que tinha Deus de pôr termo a tanta crueldade,
movido da compaixão a favor de Seu povo
e ordena a libertação de tão penosa escravidão."

Declarações de Conselheiro, demonstravam o caráter de sua pregação e de suas convicções políticas. elas se encontravam em concordância com amplas correntes do pensamento religioso e social de sua época.

"{..} Dona Isabel libertou a escravidão,
que não fez mais do que cumprir a ordem do céu;
porque era chegado o tempo marcado por Deus
para libertar esse povo de semelhante estado;
o mais degradante a que podia ser reduzido
o ente humano {..}."

A promulgação da extinção do trabalho escravo desestabilizou o regime monárquico. Abandonado pelos últimos partidários, ligados aos fazendeiros escravocratas, o sistema chegou ao seu fim.

A substituição do falido sistema monárquico pelo republicano nasceu de um compromisso entre líderes civis e militares. Nomes como Aristides Lobo, Aníbal Falcão, Lopes Trovão, Quintino Bocaiúva, José do Patrocínio, Campos Salles e outros saudaram o início de uma nova era para o Brasil. Os então considerados atrasados e estagnados, monarquistas convictos logo passaram a integrar ministérios e as bancadas legislativas republicanas após o golpe militar de Deodoro da Fonseca.

O advento da república não contou com apoio popular, nem teve participação das classes subalternas. Ao contrário, as elites militares e civis, atuaram fortemente para tomar o controle do poder.

Republicanos históricos ficaram atordoados com a indiferença das pessoas na instalação do novo regime. No Diário Popular de 18 de novembro de 1889, Aristides Lobo, escrevia que o povo não foi o protagonista dos acontecimentos, mas sim, meros espectadores que julgavam assistir a uma parada militar.

Entre os civis, os defensores do novo regime eram os ligados a cafeicultura paulista. Parte era integrada por advogados, médicos, engenheiros, que surgiram do iniciado processo de industrialização. Junto a eles, intelectuais, defendiam os novos princípios, agarrando-se ao liberalismo, ao positivismo, ou aos princípios herdados da Revolução Francesa.

A corrente militar era composta por altos e médios oficiais, especialmente do exército. Simpatizantes do positivismo, consideravam-se os precursores da modernidade, e poderiam intervir na "coisa pública" sempre que fosse conveniente. O fato de os dois primeiros presidentes terem sido militares, confirmou a influência dos militares na política. Neste ano eram intensos os movimentos em quartéis, regimentos, fortalezas, na escola militar no Rio de Janeiro. Durante o governo de Floriano Peixoto ( 1891 - 1894 ), a influência militar foi dominante.

A república não ampliou a participação popular na política. Assim como fora no império, a participação popular era praticamente nula. Partidos e agremiações, eram formados por uma minoria. O direito ao voto era excluído aos pobres, aos mendigos, as mulheres, aos menores, os militares que não fossem oficiais e aos membros de ordens religiosas. Exigia-se para o exercício da cidadania, qualidades que somente as elites possuíam, enquanto se impedia que a população comum conseguisse cumprir essas exigências. A educação básica era negada a maioria esmagadora. A república nascia antidemocrática.

A participação da elite na luta pelo poder foi intensa. Deodoro da Fonseca enfrentou oposição de ministros e parlamentares, chegando a fechar o congresso em 3 de novembro de 1891. Ele mesmo renunciaria em 23 de novembro, entregando o cargo a Floriano Peixoto.

O "Marechal de Ferro", governou em meio a tentativas de golpe, rebeliões militares, motins de rua, e conflitos civis no sul do país. Usava a espada como objeto de controle sobre adversários radicais. Mesmo desejando perpetuar-se no poder, suas ações permitiram que em novembro de 1894, assumisse o primeiro presidente civil, Prudente de Morais, representando os interesses dos cafeicultores paulistas.

A fragilidade política era agravada pelos problemas econômicos da época, sendo que a produção cafeeira era a única que não foi atingida profundamente. No início da década de 1890, o café era o responsável por 61,5% das exportações, o açúcar por 9,9%, a borracha 8%, o algodão 4,2% e couros e peles 3,2%. O desequilíbrio entre o sudeste cafeeiro e o resto do país, agravava os problemas inter-regionais.

O centro-sul, era igualmente privilegiado pelos investimentos do governo. A construção de estradas de ferro, aproveitamento de vias pluviais, instalação de rede de telégrafos e outras medidas, ampliaram as dívidas com bancos e nações estrangeiras.

Em 1883, o valor dos empréstimos contraídos no exterior era de 4.599.600 libras, e seis anos depois, chegou a 19.837.000 libras. Em 1898, representantes brasileiros tivera de negociar na Inglaterra um empréstimo de salvação, concedido sob condições estritas por parte dos financiadores. Era o "funding loan" parecidos com os do atual FMI.

A política de Rui Barbosa, o primeiro ministro da fazenda, agravou a situação. Ele autorizou a impressão desenfreada de papel-moeda, causando especulações e negociatas na compra de títulos e ações. Foi o famoso Encilhamento.

Isso causou o aumento do custo de vida. De 1888 a 1890, os gêneros de primeira necessidade aumentaram 62% e entre 1891 e 1894, 118%.

No Sudeste e no Sul, porém, as cidades cresciam lentamente. Beneficiadas pelas industrias que nasciam, e a entrada de capital estrangeiro, estas regiões testemunharam o enriquecimento de grupos que controlavam bancos e o comércio. No Rio de Janeiro e em São Paulo, emergiram grupos sociais, identificados com o progresso das cidades europeias.

Os bairros nobres se modernizavam nas cidades. Sobrados neoclássicos da época imperial, foram substituídos pelos palacetes e chalés, com jardins ao estilo europeu.

Em 24 de janeiro de 1890, Campos Salles ( ministro da justiça ) assinou um decreto que estabelecia a obrigatoriedade do casamento civil, a secularização dos cemitérios e a separação entre igreja e estado. Os religiosos manifestaram sua insatisfação. Em 26 de julho, o ministro afirmou que o não cumprimento da promulgação seria considerada crime. O casamento civil deveria ser realizado antes do religioso, e o padre que não observasse essa determinação poderia inclusive ser preso.

Essas medidas tentavam criar uma base de legitimidade ao governo. Baseados nos princípios liberais e positivistas, retiravam da igreja e passavam ao estado, responsabilidades e poderes antes monopolizados por ela.

Outro decreto de 7 de janeiro de 1890, criou o registro civil. Anteriormente, os registros eram feitos nas paróquias quando do batismo. Depois da medida só era válido o registro civil obrigatório em cartórios. Quanto aos cemitérios, deveriam ser administrados pelas autoridades municipais.

Na Bahia, o governo federal nomeou Manoel Vitorino para governar o estado, após reações contra a instalação da república. O deputado federal César Zama se destacou pelos protestos e a oposição dos políticos locais a essa determinação.

No ano seguinte, Manoel Vitorino pediu demissão e o general Hermes da Fonseca assumiu. Este último envolvido em nepotismo e empreguismo renunciou ao cargo. César Zama diria: "Na Bahia, como no Rio de Janeiro, a república foi obra de uma parte da guarnição".

No estado, o poder foi dividido entre a oligarquia tradicional. Com seus redutos eleitorais, a elite fundiária passou a controlar o governo. José Gonçalves, aliado do "barão de Jeremoabo" ( influente latifundiário ), governou o estado de forma intermitente. Ora aliado, ora adversário de Luís Viana, aristocrata eleito governador em 1896.

O controle do poder local era, porém, sempre instável, dificultando a implantação de um projeto político estabelecido pelas elites. Era o reflexo das dificuldades econômicas vividas que contrastavam com a do Sul e do Sudeste.

A economia do estado estava em decadência estrutural, com o cacau e o açúcar não alcançando receitas significativas. Em 1897, a Bahia representava apenas 5% da exportação nacional. Para agravar a situação, a crise cafeicultora de 1896, interrompeu a imigração dos sem-terra para o Sudeste. As secas agravavam o empobrecimento e a marginalização de grupos das comunidades agrícolas do interior.

A abolição da escravatura foi saudada por Antônio Conselheiro, porém a república o desgostou profundamente. Ele aprendera a respeitar e reverenciar o império e o imperador que seria o representante de Deus na terra e defensor da religião entre os homens. A laicidade, o reconhecimento do casamento civil, a separação entre a igreja e o estado, a nacionalização dos cemitérios e o reconhecimento dos direitos religiosos de protestantes e judeus, odiados pelo clero católico, magoaram-lhe profundamente.

Antes de se acomodar a república, a alta hierarquia católica combatera a separação entre igreja e estado.

As posição do pregador sertanejo colocava em evidência as mudanças realizadas pelo governo. A república não oferecia aos sertanejos, nem a população em geral, melhores condições de vida. Ao contrário, o acúmulo de obrigações e impostos aumentava o empobrecimento. Nos anos seguintes a mudança de governo, a população pobre viu suas condições de vida piorarem e as populações rurais culpavam a república pelos problemas.

Para Antônio Conselheiro as dificuldades eram causadas pela separação entre as coisas públicas e as coisas de Deus. A monarquia representava Deus na terra, a república era então, o governo do cão ( ou demônio ).

Na Bahia a renda das exportações caia sem parar. As elites aumentaram os impostos diretos ao povo, criando taxas e acumulando as existentes. Crescia a pressão sobre os municípios e esses pressionavam a população.

A autonomia municipal da Constituição de 1891, dava as elites o poder de explorar com mais tributos a população. para o historiador Marco Antônio Villa, a república passou a ser sinônimo de miséria, imposto, fome, e morte na mente da massa rural.

A receita baiana caiu de forma significativa com as taxas sobre as exportações, e a pressão fiscal sobre a população cresceu consideravelmente. Como a população rural praticava uma economia basicamente natural e escassamente monetária, a inflação era uma coisa inexplicável, e era considerado um fenômeno maligno.

Antônio Conselheiro iria se pronunciar contra a república em suas prédicas desde 1889. A perseguição contra ele aumentou quando o clero, por ordens superiores, cessaram a oposição ao novo regime, reconhecendo sua legitimidade.

Ele era inquirido, e pronunciava sobre o caráter da nova ordem, e sobre os novos impostos, falando sobre as coisas de Deus e das coisas de "César".

Nas feiras da região, eram cobradas para se vender e comprar. Certa vez, os fiscais cobraram cem réis de uma sertaneja para que pudesse expor uma esteira que não superaria o valor de 80 réis. Ao entardecer, o pregador denunciou a situação.

Este tipo de discurso era bem acolhido pela população cabocla. Suspeita-se que ao menos três batidas policiais foram enviadas contra o pregador, sem maiores resultados. As elites baianas compreendiam que resolver as dificuldades financeiras explorando o povo, causava antipatia ao novo regime.

No interior da Bahia, os editais de cobrança eram afixados em painéis, nas praças das aglomerações. Em 1893, em Bom Conselho, os conselheiristas queimaram as tábuas e os editais em uma fogueira. O mesmo ocorreu em outras localidades.

O ato rebelde simbolizava a insatisfação popular contra a nova ordem e os novos impostos. Os discursos do pregador parecem ter iniciado um movimento bem mais amplo do que se acredita. Em diversos municípios o pagamento das taxas foi interrompido. A pregação do conselheiro refletia a vontade do povo ( a isenção de impostos ), porém, não se tem noção da extensão geográfica desse movimento de desobediência civil.

Com a destruição dos editais, Antônio Conselheiro transgredia pela primeira vez a ordem civil. Mesmo se os conselheiristas não reconhecessem a nova ordem, cometeram um delito punível pela lei: destruir um bem público e incentivar a desobediência às autoridades constituídas. Consciente do ato , o líder abandonou Bom Conselho. O juiz de direito da comarca, Arlindo Leoni, requereu ao governador tropas para conter o agitador.

O governador baiano Rodrigues Lima expediu da cidade de Salvador, 35 praças armados sob o comando do tenente Virgílio de Almeida, para prenderem Antônio Conselheiro e desbaratar seu bando, e colocar fim a desobediência às imposições governamentais.

Em Masseté, se deu o encontro entre as tropas rebeldes e a polícia. Todos acreditavam em uma vitória rápida sobre um séquito de beatos, velhas, crianças e penitentes. Não haveria mais de 200 seguidores do pregador.

A história do primeiro confronto não possui muitas informações. O certo é que na noite de 26 de maio de 1893, o destacamento foi vencido pelos conselheiristas, estando estes armados de bacamartes, porretes, facões e armas de ocasião.

Ainda que a disposição bélica da tropa fosse pequena, já que era provavelmente formada por homens com soldo atrasado e arrolados a força, ela estava regularmente treinada e armada. A vitória não se deu apenas por fervor místico dos combatentes, pois não era comum beatos vencerem forças policiais.

Já assinalamos que após a formação do arraial de Belo Monte, Antônio Conselheiro formou a Guarda Católica, composta por seguidores bem armados. Ela foi a espinha dorsal da resistência conselheirista durante o prolongado cerco militar. É provável que ao menos o núcleo central da organização já estivesse constituída depois da prisão do conselheiro, certamente após 1886.

Quando a derrota foi noticiada em Salvador, o governador Rodrigues Lima solicitou ao presidente Floriano Peixoto, ajuda federal para combater os rebeldes.uma nova expedição de 80 soldados da guarnição de linha segui até Serrinha. Em uma reunião, as autoridades acharam mais prudente interromper o ataque. A decisão pode ter sido tomada baseada na insatisfação do povo do sertão com o novo estado das coisas.

Os conselheiristas venciam sua primeira batalha contra o governo "do Cão". O sertão abria-se, livre, imenso, diante do conselheiro e sua gente. podiam procurar um lugar para viver, com seu trabalho e sua orações. Para isso, se deslocaram tempos depois para uma área praticamente abandonada, a Fazenda Velha. No local havia o pequeno povoado de Canudos. Ali, o líder religioso fundou o arraial de Belo Monte. Um nome que registrava esperança e a alegria de viver dessa gente que conhecera, até então, apenas sofrimento e tristeza.
Este artigo tem como base bibliográfica a obra Belo Monte uma História da Guerra de Canudos, de José Rivair Macedo e Mário Maestri, da Editora Moderna que faz parte da Coleção Polêmica.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Ainda Vale a Pena


(Na foto, Falcão, Luís Pereira e Juari. Presentes da minha mãe em 1979, com seu salário de manicure).

Neste momento milhões de brasileiros estão tendo aquela que pode ser a sua única alegria do dia. A maioria do povo, aliás.

É impossível não torcer por eles e por mim mesmo, porque também sou um homem pobre, mais perto do fim do que do começo e também choro sempre. Tenho muitos motivos para isso, mas o principal deles é que não sou um escroque que só pensa em si. E qualquer pessoa que se preocupe com o próximo no Brasil acaba chorando.

No meio do caminho, tem os estudantes fuzilados, a moça que vai comprar uma roupa e some, os policiais assassinados, o desemprego, a fome, o caos. Está tudo na rua de qualquer grande cidade, só não vê quem enxerga com olhar hipócrita.

E por uma hora e meia o Brasil tem praticamente um cessar-fogo. Eu tenho um cessar-fogo no meu peito triste e doente.

Em 1970 eu era um bebê em casa e meus pais choravam porque meu tio estava preso, tomando porrada da ditadura num prédio que fica a 200 metros da minha casa.

Em 1978 eu saí à rua para pagar a mensalidade da escola no intervalo de Brasil x Argentina, na casa da diretora reaça. Uma chuva de papel picado na rua, linda.

Em 1982, andei com meus amigos pelas ruas desertas de Copacabana até a Lagoa, para jogar bola depois dos 3 a 2 da Itália. A bola caiu na Lagoa, sumiu rapidinho e voltamos desolados. Não havia um carro na rua.

Em 1990 a gente estava na casa do Luizinho. Nosso Xuru xingando o mundo inteiro depois do gol de Caniggia. A final de 1994 eu ouvi pelo rádio sozinho: não tinha dinheiro nem TV, no máximo esperança no futuro.

Em 1998, 2002 e 2006 em casa, com minha família. Foram tempos felizes. A de 2010 foi no trabalho - um jogo foi especial, já escrevi sobre isso. Em 2014, a festa foi bonita demais, apesar do desastre no campo: dava uma sensação de pertencimento ao país vendo as ruas, as gentes.

Agora, do jeito que dá, o futebol é algum bálsamo. A turma no botequim humílimo chorando - sim - com o golaço de CR7 no empate com a Espanha. Todo mundo vibrando com a Islândia contra a Argentina. E daí que a Coreia estava eliminada? O resultado aí está.

Eu não tenho compromisso algum com dirigentes corruptos, empresários de jogadores, jogadores deslumbrados, jornalistas pernósticos e prepotentes - que todos se explodam. O meu compromisso é com o gol, com o garoto do Alemão e sua camisa escrita a caneta, com os abraços, com a solidariedade, com os botões de panelinha, com a saudade da minha família. Se existe lama no futebol - e como há! -, a culpa não é dele mas sim de quem o controla ou tenta controlar - geralmente são os mesmos, que ninguém se iluda.

O mundo já está cheio de gente querendo decidir o que se pode ou não, mas que mal sabe de si mesma. O que eu quero é só uma horinha de alegria entre as lágrimas diárias. Penso nos ambulantes sorrindo agora, os trabalhadores humildes, os garotos sonhando em fazer um gol numa Copa. Eu já fui um garoto e sei bem o valor disso.

A Seleção venceu. Pode ter sido o penúltimo passo, pode ter sido o terceiro rumo ao hexa, pode ser qualquer coisa. Não importa: houve uma pequena felicidade, especialmente para quem quase nunca a tem. É como o amor, que vence até quando fracassa, pelo simples existir.

Ainda vale a pena.

EDTE TEXTO PERTENCE AO ESCRITOR PAULO-ROBERTO ANDEL


segunda-feira, 18 de junho de 2018

Série Histórica - Guerra de Canudos Parte 2: De Conselheiro à Santo

Em 20 anos de andanças, Antônio Conselheiro desenvolveu uma obra religiosa com grande apelo político e social. Ele era temido, e combatido pelas autoridades religiosas e civis na mesma proporção em que era cortejado e protegido.

Ganhou os nomes de Santo Antônio dos Mares, Santo Antônio Aparecido, Bom Jesus Conselheiro, Bom Jesus, Santo Conselheiro, porém o povo denominou sobretudo, Antônio Conselheiro.

Em 1874, o cônego Agripino da Silva Borges cedeu uma casa à Antônio e seus fiéis. Porém, o chefe de polícia Boaventura da Silva Caldas, pediu à capital, forças policiais e expulsaram Antônio. Sem reagir violentamente, Antônio partiu para o Sergipe. Foi a primeira de uma série de perseguições que ele sofreu por parte das autoridades.

A fama e a autoridade de Antônio Conselheiro cresceram rapidamente. A publicação carioca Folhinha Laemert alertou que ele tinha "grande influência no espírito das classes populares".

Ele sempre aparecia com cabelos e barbas compridos, vestindo camisolão de brim azul sem cintura, chapéu de abas largas e sandálias. Muito parecido com o monge italiano João Maria. Seu comer era frugal, dormia ou em chão duro ou alguma taboa. Vivia de esmolas.

Seus seguidores levavam, um oratório de cedro que encerrava a imagem de Cristo. Ele carregava dois livros: A Missão abreviada e Horas Marianas.

Desde 1876, a região de Itapicuru de Cima na Bahia foi uma espécie de quartel general. Foi ali que mais tarde ele fundaria Bom Jesus. Nessa época ele atuava nas regiões entre o rio São Francisco e Itaicuru. No centro dessa região se encontrava o arraial de Canudos.

No mesmo ano de 1876, a pedido do vigário dom Luís D'amour, a polícia prendeu Antônio Conselheiro acusado de assassinato. Diogo Antônio Bahia, alferes, acompanhado de 15 soldados foi o responsável pela sua captura. Mesmo em grande número, seus seguidores não reagiram.

Dois seguidores dele foram presos: José Manoel que foi arrolado à força ao exército e Estevão, este acusado de ser um escravo fugido. O fato de um escravo fugitivo encontrar abrigo entre os seguidores de Antônio Conselheiro gerou preocupação entre os grande proprietários.

No caminho para Salvador, ele foi espancado pelos policiais. Quando pressionado pelas autoridades para delatar os agressores, apenas disse: "mais que eu sofreu o Cristo". Foi enviado para Fortaleza no Ceará.

O vigário de Itapicuru pediu as autoridades que não fosse permitida a volta de Antônio Conselheiro à Bahia. Pedido reforçado pelo secretário de polícia da Bahia. A perseguição aos líderes religiosos populares na época parecia habitual.

Ainda em junho de 1876, ele foi enviado para Quixeramobim, onde foi libertado.

A popularidade do conselheiro acabou  gerando uma série de especulações sobre sua vida pessoal. Criaram a história de que ele havia sido autor de um duplo homicídio cujas vítimas teriam sido sua mãe e sua esposa. Porém sua mãe havia morrido em 1834, sendo ele ainda criança.

Em liberdade, Conselheiro voltou para o meio de seus fiéis.

Entre 1877 e 1887, Conselheiro passou por diversas povoações sertanejas, como Alagoinhas, Inhambupe, Bom Conselho, Jeremoabo, Cumbe, Mucambo, Massacará, Pombal, Monte Santo, Tucano e outras. Consertava igrejas e cemitérios, construía açudes, etc.

Nesses anos, seu renome já era grande, e era recebido com euforia nos povoados. Impressionava a plateia, porém pessoas instruídas o chamavam "charlatão".

Era duramente criticado por membros da elite, mas entre o povo, gozava de simpatia e despertava a sanha dos miseráveis.

Em 1888, seu nome já fazia parte da tradição oral.

Em Chorrochó, nas margens de um afluente do Rio São Francisco, Conselheiro descansava à sombra de uma árvore na entrada da vila. Ali se tornou um verdadeiro local de culto.

Os materiais de construção de que utilizavam seus fiéis para consertar igrejas e cemitérios e construir os açudes, eram doados e eles não cobravam pelos serviços. Seus seguidores eram alimentados com esmolas por comerciantes e grandes proprietários que o faziam para manter longe de suas terras os beatos.

Até hoje a Capela de Senhor do Bonfim, terminada em 1885, se mantém de pé.

Párocos desejosos de ver suas igrejas reformadas, convidavam Conselheiro para feiras locais e lhe cediam o púlpito. Isso reforçava seu perfil de pregador semi-oficial da igreja.

Seus seguidores eram batizados, casavam, confessavam e comungavam. essa era a principal fonte de renda de muitos dos vigários do interior.

Em 1888, um oficial da polícia baiana encontrou Conselheiro em Monte Santo, e segundo ele, os vigários o deixavam pregar, promover batizados, casamentos, novenas e tudo o mais que gera dinheiro as igrejas.

A relação entre Conselheiro e a igreja, porém, foi negada e esquecida quando ele e seus seguidores passaram a ser atacados pela hierarquia religiosa, e principalmente quando foram atacados militarmente.

Em fevereiro de 1882, 6 anos antes deste relato do oficial baiano, o arcebispo da Bahia enviou uma circular aos subordinados proibindo as pregações de Conselheiro nas diversas freguesias. Ele lembrava que a missão de doutrinar o povo não cabia a um homem comum, por mais instruído e virtuoso que fosse.

Até o final do século XIX, a autoridade religiosa católica de última instância cabia aos monarcas. Era um direito concedido aos reis de Portugal pelos Papas. Em virtude disso, Roma não podia intervir diretamente sobre os párocos.

Essa situação ajuda na compreensão da falta de assistência religiosas nas comunidades rurais e a dificuldade da igreja interferir nas formas religiosas populares. O catolicismo que existia era um sincretismo entre o catolicismo português e as tradições indígenas e africanas que se adaptava as duras condições de existência material e espiritual das camadas mais pobres.

O Papa Pio IX, iniciou uma campanha de reconquista do poder religioso da Igreja em relação aos estados nacionais, na segunda metade do século XIX. Tentando estabelecer laços de hierarquia entre Roma e as autoridades católicas nacionais. Era a "romanização do clero". Neste contexto político-religioso, surgiu a hostilidade da Igreja com Antônio Conselheiro.

Estas mudanças afetaram o relacionamento entre padres e paroquianos sertanejos do Nordeste. A Igreja colocava padres paulistas, mineiros ou estrangeiros na liderança das dioceses. Estes, estranhos aos costumes culturais e sociais dos sertões.

As escolas e seminários passaram a formar o clero, com base nas determinações diretas de Roma. O arcebispo da Bahia, dom Luís dos Santos, encontrou forte resistência de padres dentro de suas comunidades.

Pregadores e místicos leigos, mesmo proibidos de atuar pelo clero, continuaram a agir, inclusive com apoio de padres, no sertão baiano.

Conselheiro foi acusado pelo arcebispo da Bahia de pregar ao povo "doutrinas supersticiosas e uma moral excessivamente rígida". O semanário O Rabudo, fez a mesma acusação. Em 1985, pouco antes da Guerra de Canudos, o capuchinho João Evangelista de Monte Marciano denunciou ainda o ascetismo extremado dos seguidores de Conselheiro. Nina Rodrigues também alertou para as tendências "comunistas" desses seguidores.

As elites não permitem que a miséria popular se torne virtude religiosa. Quando isso acontece, a pobreza antes vista como inferioridade, torna-se uma condição para a Salvação. Se a pobreza apresenta-se como qualidade moral, a riqueza e o luxo das elites tornam-se símbolos de decadência e corrupção moral.

As instruções dadas por dom Luís dos Santos, eram para tentar coibir os "abusos" permitidos pelo próprio clero, mas suas determinações alcançaram resultados parciais. O arcebispo não conhecia as dificuldades vividas por dezenas de párocos do interior da Bahia. Porém, mesmo assim, a relação do pregador com o clero foi minada. Da conivência, da colaboração e omissão, passou-se a perseguição.

Em novembro de 1886, o chefe de polícia de Itapicuru de Cima, comunicou ao chefe de polícia da Bahia que conselheiro estava construindo ali uma capela. ele alegava que estavam com o pregador homens armados e que este reunia até mil pessoas para rezas e sermões. Informava ainda que o vigário de Inhambupe estava em conflito aberto com os conselheiristas.

Conselheiro continuava a ter sucesso nas práticas religiosas permitidas aos laicos pelo direito canônico. esta carta nada de novo apresentava a não ser a declaração do delegado de que os seguidores se armavam não só da "Palavra Sagrada", mas também de cacetetes, facas, facões e pequenas carabinas.

Os historiadores da Guerra de Canudos, pouca importância dedicaram à organização dos seguidores do pregador antes da formação do arraial de Belo Monte. O missionário e andarilho fundara um pequeno povoado. Abelardo Montenegro ( biografo ), afirma que ele transformou uma fazenda em povoado:

"Antônio construía, em 1886,
a capela de Bom Jesus,
onde trabalhavam às expensas do povo muitos homens,
inclusive cearenses,
nos quais depositava a mais cega confiança.
O cearense Feitosa chefiava os operários.
O arraial constituía uma praça de armas."

Como sabemos, Conselheiro era natural do Ceará. Segundo Nina Rodrigues, após diversos problemas com a polícia, Conselheiro teria deixado a vila de Bom Jesus para internar-se nos sertões e fundar o arraial de Belo Monte. Esta pequena comunidade com igreja, beatos e homens armados pode ter sido um ensaio para a futura Belo Monte.

Foi em 1886, que o delegado de Itapicuru oficiava que os seguidores do pregador andavam fortemente armados. Ele com certeza não se referia a todos os seguidores, mas a um grupo pequeno e seleto. Dez anos mais tarde, os acontecimentos comprovariam a capacidade dos fiéis de responderem aos atentados policiais contra o grupo.

Não existem informações precisas sobre a organização do núcleo de seguidores permanentes nem do arraial do Bom Jesus ( atual Crisópolis ). Não é impossível que Conselheiro tenha organizado grupos de apoio religioso e militar desde essa época, como existiram depois em Belo Monte.

A Companhia do Bom Jesus, era um grupo que prestava assistência espiritual à comunidade. E a Guarda Católica era um grupo de combatentes escolhidos e devotados, que defendia o reduto.

Sua influência foi vista em outros tantos personagens da época. Em Pernambuco, o Conselheiro Guedes, vestido como carmelita, percorria lugares afastados do interior, benzendo e pregando. Na Bahia, Conselheiro Francisco Maria de Jesus, ajudou a construir uma igreja em Cumbe, próximo ao arraial de Canudos.

Por volta de 1885, Conselheiro não era uma figura exótica, mas sim, um representante de destaque de uma comunidade religiosa laica que existia na região e no país. Junto com ele, e certamente influenciado por ele, outros "conselheiros" vagaram pelas zonas rurais da Bahia e pelas proximidades. Um deles, Luís Ribeiro da Silva, tinha sido beato de Conselheiro e resolveu criar seu próprio grupo de penitentes.

Em meados de 1887, um novo ofício do arcebispo da Bahia, denunciava a pregação de Conselheiro e suas "doutrinas subversivas" contra a Igreja e o Estado. O presidente da província pediu a internação do pregador no hospício D.Pedro II, no Rio de Janeiro, ao ministro do Império.

Conselheiro não havia cometido nenhum crime, ou desobedecido nenhuma lei eclesiástica. Mas isso não impediu o questionamento de sua faculdades mentais. Porém, o pedido eclesiástico não prosperou. O ministro alegou não haver vagas no hospício. O presidente da província informou ao arcebispo esta informação, como uma recusa educada ao pedido. Caso houvesse vontade política, com certeza se arrumaria um lugar para o Conselheiro no hospital.

Não se sabe os motivos concretos da recusa do presidente da província de internar Conselheiro. Na época ele já contava com simpatizantes e protetores na capital. É possível que as autoridades temessem a reação dos seguidores do pregador. Era de conhecimento das autoridades que um grupo armado seguia Conselheiro pelos sertões.
Este artigo tem como base bibliográfica a obra Belo Monte uma História da Guerra de Canudos, de José Rivair Macedo e Mário Maestri, da Editora Moderna que faz parte da Coleção Polêmica.

terça-feira, 15 de maio de 2018

Série Histórica - Guerra de Canudos Parte 1: De Antônio à Conselheiro

Antônio Vicente Mendes Maciel nasceu em Quixeramobim, na província do Ceará, em 13 de março de 1830.

Após aprender a escrever e a contar, com o amigo de seu pai, capitão Raimundo Francisco das Chagas, ele ingressou na escola particular de Manuel Ferreira Nobre, estudando português, aritmética, geografia e rudimentos de latim e francês.

Em 1947, o Ceará e as regiões vizinhas, conheceram secas violentas, onde as plantações secavam e o gado morria. Os senhores vendiam seus escravos para o Sul, para quitar dívidas e os indígenas entregavam seus filhos como escravos em troca de alimentos. Já com 18 anos, em 1948, o jovem Antônio teria deixado de trabalhar como caixeiro na casa comercial do pai.

Em 1855, o pai de Antônio morreu, deixando o filho responsável pelas irmãs ainda solteiras, além de negócios bastantes enredados. No ano seguinte, faleceu sua mãe com apenas 39 anos de idade e faculdades mentais adoecidas.

Com as dívidas a serem pagas, e o espólio restante tendo de ser dividido entre os filhos, Antônio ficou com pouco mais de 200 réis, para continuar o negócio da família. Mas a situação da província e a base precária para iniciar o negócio, obrigaram Antônio a hipotecar a casa e a sede do negócio do pai.

Em janeiro de 1857, Antônio se casou com Brasilina Laurentina de Lima, que era filha ilegítima, órfã e analfabeta. Meses depois, ele vendeu tudo e foi para a Fazenda do Tigre, 50 quilômetros da vila natal.

Ele abriu uma escola primária onde ensinava português, aritmética e geografia. Além disso, para sobreviver, ele desempenhou funções de domador e pedreiro-construtor.

Mesmo na sociedade escravista da época, trabalhar com as mãos era socialmente degradante, e Antônio, era filho de comerciante e letrado. Portanto, ele se tornou um participante de dois universos diferentes. Um caso raro na sua época.

Antônio se mudou para Tamboril e depois Campo Grande, onde atuou como caixeiro em 1859 na casa comercial do major Domingos Carlos de Sabóia. Quando o negócio fechou, ele passou a atuar como rábula ( ou advogado provisionado ), o que confirmava sua formação intelectual.

Em 1861, já em Ipu, foi traído e abandonado pela esposa que foi viver com um suboficial da força pública.

Sozinho, mudou-se para a Fazenda de Santo Amaro, propriedade do major José Gonçalves Veras, onde voltou a lecionar. Mais tarde, na vila de Santa Quitéria, envolveu-se com Joana Imaginária, escultora de imagens de barro, e muito conhecida regionalmente.

Em 1865, Antônio viajou para Campo Grande, Crato e Paus Brancos, trabalhando como vendedor ambulante, acompanhando evangelistas missionários pela região.

O nascimento do Antônio religioso pode ter sido facilitada pela sua criação familiar e possibilitada pelas condições da época. Como no Brasil colonial sempre houve uma falta de sacerdotes, cabia a alguns homens e mulheres caridosas, desempenhar esse papel. A existência desse clero laico, era comum no interior do Nordeste e no Sul, entre caboclos, imigrantes alemães e italianos.

Não seria nada absurdo que um professor fosse encarregado de realizar essas atividades religiosas quando necessário. O fato de saber ler e escrever, colocava Antônio na condição de um mestre diante da população sertaneja analfabeta.

O Conselheiro era aquele que desempenhava o papel de pregador, e dava conselhos para os crentes entre esse clero laico. O Conselheiro era geralmente uma pessoa de influência social dentro das comunidades sertanejas, desempenhando uma liderança política e ideológica mesmo que não oficialmente.

Antônio acabou alcançando um poder político e social muito grande.

Ele conheceu ainda em seu tempo de vendedor ambulante, padre José Antônio Pereira Ibiapina, e com ele andou por algum tempo pelo sertão. O padre era considerado um homem santo pelo povo do sertão. Quando padre Ibiapina morreu em 1883, a fama de Antônio Conselheiro já se espalhava pelos sertões.

O filho de um comerciante analfabeto, sem posses, e de futuro incerto, acabou se tornando um líder religioso e líder político em Belo Monte, arraial fundado por ele.

Mas antes disso em 1869, quando morou em Várzea de Pedra, acabou adquirindo uma dívida que não pode quitar, e condenado teve seus bens leiloados em outubro de 1871.

Dois anos depois, 1873 ele reapareceu em Assaré ( Ceará ), já como beato. Ali conheceu os irmãos Honório e Antônio Assunção Vila Nova que posteriormente também tiveram papel importante em Belo Monte.

No ano seguinte, 1874, ele andou pelo Sergipe e pela Bahia, onde pregava e aumentava seu número de fiéis. Nessa época ficou conhecido como Santo Antônio dos Mares.

Em 22 de novembro de 1874, O Rabudo, um semanário sergipano publicou:

"A bom seis meses que por todo o centro desta e da província da Bahia,
chegado do Ceará, infesta um aventureiro santarrão
que se apelida por Antônio dos Mares, o que,
a vista dos aparentes e mentirosos milagres que dizem ter ele feito,
tem dado lugar a que o povo o trate por Santo Antônio dos Mares"

Este artigo tem como base bibliográfica a obra Belo Monte uma História da Guerra de Canudos, de José Rivair Macedo e Mário Maestri, da Editora Moderna que faz parte da Coleção Polêmica.

sábado, 30 de dezembro de 2017

Fim de Ano do Futebol Brasileiro

Reproduziremos aqui, o texto do "jornalista" Rica Perroni.

Todo ano eu me pergunto em dezembro onde estavam nos útlimos anos e eleições os clubes que hoje se lamentam pelo calendário.

Todo ano eu tento entender como 10 clubes podem achar ruim a cota de TV e só 2 estarem felizes sendo que 10 podem fazer um campeonato e 2 não.

Todo ano eu tento entender porque o torcedor é tão facilmente manipulado pela mídia que odeia a CBF e não percebe que tudo que está lá é meramente a representação oficial autorizada do SEU clube.

Há meses a CBF não tem presidente que possa sair do país. Algum clube foi lá cobrar da entidade o afastamento dele? Que houvesse nova eleição? Que algo fosse feito pela representação dos clubes?

Não.

Houve algum movimento entre os clubes para que a eleição na CBF seja ANTECIPADA após a suspensão do presidente? Não. Ela será ADIADA para que ele esteja de volta ao cenário político.

Nos últimos anos qualquer analfabeto entendeu que o sistema de corrupção, má gestão e favores do governo só existe porque é sustentado de baixo pra cima.  Não notaram que o futebol brasileiro tem um sistema político muito parecido e, portanto,  tem muita gente muda porque está feliz.

Seu clube, seja ele qual for, é cúmplice e hoje um dos mais covardes pilares do futebol brasileiro. Se há 12 "grandes" que se quiserem mudam tudo, sabemos de quem são.  E eles não estão muito preocupados com nada disso, apenas com qual jogador vão tirar do rival via liminar, ou talvez como vão eleger alguem mais próximo desse ou daquele dirigente.  Ou também, "pra que se indispor com o presidente e amanhã ter um pênalti não marcado?", como ouvi outro dia.

Não querem mudar. Não vão mudar.

A CBF passou pelo ano todo esperando uma atitude de fora pra dentro que pudesse intervir no absurdo que é ter um presidente que não pode exercer suas funções em sua totalidade e nem ter a dignidade de pedir pra sair enquanto nota ser um atraso pro futebol brasileiro.

Ninguém se mexeu. Nenhuma federação ou clube tentou mudar isso ou protestar contra o cenário.

E você realmente acha que seu clube é "vítima" de qualquer calendário, receita de TV, regras do jogo ou politicagem do futebol brasileiro?

Então tá.

abs,
RicaPerrone