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segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

Zagallo: Por quem os sinos dobram

Dado o inevitável da vida, a passagem de Zagallo sugere muitas reflexões sobre o futebol brasileiro, onde ele é uma página eterna do nosso esporte há décadas.

Como jogador, reinou por Flamengo e Botafogo depois de passar pelo America. Do jovem recruta do Exército no Maracanã diante do Uruguai ao campeão mundial na Suécia, a distância é de apenas oito anos. Do quase corte da Seleção à consagração em 1958, com direito a gol do título, foram apenas alguns meses. E dos palcos suecos para o Chile, apenas mais quatro anos. Se parássemos por aqui, o Velho Lobo já teria um currículo monumental, mas o destino lhe reservou muito mais.

Não há dúvidas de que a maior Seleção Brasileira da história começou a ser desenhada por João Saldanha, mas também é impossível não reconhecer que o Brasil do México 1970 foi todo reescalado e adaptado por Zagallo, dos cinco camisas 10 no ataque ao miolo de zaga com Piazza recuado. É o time dos sonhos que se tornaram realidade.

Do campeão pelo Fluminense em 1971 ao gol de falta de Petkovic em 2001, Zagallo viveu trinta anos dourados. Ganhou e perdeu títulos, viveu novas emoções com a Seleção Brasileira. Comemorou o Brasil tetracampeão mundial nos EUA como coordenador técnico, foi vice mundial na França em 1998. Estava no Botafogo quando o Alvinegro alcançou o recorde brasileiro de invencibilidade em 1978, com 52 jogos. E faturou petrodólares nos primórdios do futebol árabe.

Seria impossível para um homem de tamanho mundial não se envolver em controvérsias e polêmicas pelo caminho, mas todas são pequenas diante de sua estatura. Tão grande que já era imortal muito antes da própria morte, anos depois de sua última grande aparição pública, conduzindo a tocha olímpica no Rio de Janeiro para os jogos de 2016.

Por fim, sua longa e gloriosa trajetória também se mistura ao folclore, como na superstição com o número 13 que sempre lhe acompanhou. Se pensarmos em expressões como "Brasil campeão" ou "Seleção de Ouro", ambas possuem exatas treze letras - e fazem todo sentido como o desfecho de uma vida espetacular, vitoriosa e que agora deita em berço esplêndido.

É que os sinos dobram pela vitória.


TEXTO DE:

@p.r.andel

domingo, 8 de outubro de 2023

Tchau, Árvore

Eu gosto muito de árvores. Minha mãe também gostava. 

Essa árvore era bem grande, na Praça Tiradentes. Há tempos estava doente no pé. Tempos. Era como se fosse minha. Eu queria ter árvores, mas não tenho. 

Eu passava, olhava sua grandeza, sua enorme sombra e desejava que ela aguentasse firme - bom, nessa terra de descaso a maioria só sobrevive aguentando firme. Quase todos nós cumprimos penas simplesmente por existir. 

Ontem não deu mais. Minha árvore disse adeus. Já, já, o rabecão a leva e ninguém vai se lembrar mesmo. Nossa vocação é o descaso e a indiferença. Na hora do óbito, os menos hipócritas - ou mais, conforme cada caso - escrevem posts emocionados, muito mais para aparecer do que por qualquer sentimento bom. 

Tchau, árvore. Obrigado por tudo. Eu gosto de você e não vou te esquecer.

TEXTO DE:

segunda-feira, 17 de julho de 2023

Rip Jão Donato

 

Um dos maiores músicos brasileiros de todos os tempos, deixa um legado artístico impressionante, marcado pela simbiose dos nossos gêneros musicais com a música cubana, que ele muito vivenciou quando morou nos EUA e integrou o conjunto de Mongo Santamaria. Uma combinação perfeita da latinidade com o samba, o jazz e a bossa nova. Arranjador predileto de Tom Jobim. 

Em atividade desde os anos 1950, a partir dos 1980 ficou um período sem gravar, mas da década seguinte foi um dos músicos que mais gravaram álbuns no Brasil, recuperando o tempo perdido. Além de seu catálogo impecável, João Donato marcou sua presença em grandes trabalhos com Gal Costa, Gilberto Gil, Marisa Monte, Emílio Santiago e um elenco estelar da MPB.

Respeitado internacionalmente, sua passagem repercute nesta mesma intensidade. 

Para variar, o genial João Donato era torcedor do Fluminense, tendo grandes embates com o vascaíno João Gilberto quando ambos dividiram apartamento em Copacabana. 


TEXTO DE:

@pauloandel 

FOTO DE:

Raul Sussekind, 2007


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João Donato tinha 74 anos de carreira, marcada pela criatividade e pelas misturas de vários gêneros musicais. Ele não parou de trabalhar nem durante a pandemia da Covid-19, quando participou do lançamento digital do álbum “Jazz is Dead”, em parceria com músicos de Los Angeles.

terça-feira, 20 de junho de 2023

Uma Canção para Tom Waits

Quem tem paz? É difícil demais. Nesta noite gelada, de muito sofrimento no Rio, um cobertor pode salvar uma vida. Um chocolate quente. Um prato de boa sopa. Uma roupa digna. Tudo isso falta e deveria ser indigno achar isso normal, mas muitos o fazem por meio de um procurador: Deus.

Deus quis assim, Deus quer assado.

É uma farsa e uma covardia atribuir a Deus a escrotidão dos seres humanos.

Mas seguimos assim. Eu, por exemplo, nunca tive paz por mais de uma semana: sempre houve problemas feito cordas em meu pescoço, os mais diversos, então cheguei aqui meio sem planos ou rumo, perdido na multidão, sem pai nem mãe.

Além de tudo eu sou vítima da gordofobia, taquepariu: logo eu, que joguei muita bola na praia, que treinei tanto para a São Silvestre na madrugada, fiquei gordo demais. E sempre que posso eu como mesmo, porque já vi muitos sanduíches e salgados na vida que não pude comer, ora por estar duro, ora por precisar economizar, ora para sustentar minha família.

 Então agora que eu ando no fio da navalha, se puder como bastante. E daí que fiquei gordo?

Ninguém precisa gostar de mim, nem do meu corpo: quem fazia isso foi embora ou já morreu! Mas minha barriga não importa, eu quero falar que ainda sonho com uma semana de paz antes de morrer, um mês, já pensou um ano? A paz.

Paz. Ter onde morar, ter comida, algumas roupas razoáveis, os livros, os cds, os botões e um smartphone com wi-fi é o que basta.

Tanto faz o lugar: eu nunca mais vou voltar para casa como gostaria, qualquer casa serve. Queria paz. Andar na rua e ver as pessoas em paz, com algum conforto. Entrar na fila do restaurante e fazer meu prato em paz. Comer, pagar, caminhar e passear numa tarde de paz.

Admirar respeitosamente a beleza de uma garota que passa em paz. Ver lojas abertas com pessoas trabalhando tranquilamente. Carros passando sem se fecharem como se quisessem trocar socos. As calçadas limpas, sem sofrimento debaixo das marquises. As crianças passando tranquilas.

A paz é a grande fortuna e não é preciso ser milionário para tê-la, mas é impossível tê-la passando fome, miséria, dor, doença e violência.

A paz chama abraços e sorrisos, tudo ao contrário dessa cidade cabisbaixa, cheia de silêncios e desertos urbanos. Não existe paz com abandono. Não existe paz com falsidade.

Quem tem paz? É difícil demais. Nesta noite gelada, de muito sofrimento no Rio, a paz é escassa demais. Hoje um homem chorou sua jovem esposa morta pela polícia. Hoje traficantes e milicianos estupraram, agrediram e mataram.

 Hoje há bêbados e crackers miseráveis esperando a morte chegar nas ruas e ela, tão filhadaput@, demora a vir para que sofram mais.

Hoje eu tenho dor e desespero, mas não há nada a ser feito porque todas as poucas pessoas que eram tão minhas estão longe ou completamente mortas, mortas, mesmo que eu pense nelas o tempo inteiro.

Então escrevo para aliviar minha dor infinita, para suportar melhor a estadia neste lugar estranho e hostil, enquanto sonho com o impossível: um ano de paz, algo que nunca tive nem nos melhores momentos de minha vida.

E quem tem a verdadeira paz? Quem finge tê-la? Quem confunde paz com felicidade?

Esta é uma segunda-feira gelada no Rio, uma cidade de silêncios, desertos urbanos, opressão, miséria e crimes pavorosos.

Quem será que se preocupa com isso? Ninguém, meu senhor, é cada um por si e Deus está do lado de quem vai vencer.

A cidade não tem paz, é que as pessoas não têm paz nem quando na TV Chaka Khan canta Joni Mitchell.

Nem Chico Buarque tem paz.

O Fluminense não tem paz, senhor. Imagine os humilhados na linha de trem do Jacarezinho.

 Imagine o breu profundo da Automóvel Clube toda escura, com um camburão nas sombras.

Imagine a garotinha procurando comida na lata de lixo.

Há paz ou vivemos uma grande farsa protegida pela nossa escrotidão e egoísmo? Isso é voluntarismo, filhadaput@? Não. É dignidade, caráter, amor ao próximo, tudo que é tão desprezado nessa máquina de moer carne chamada sociedade de consumo.

Agora vou descansar. Eu não conheço a paz e a espero, nem que seja pelo gracioso beijo da morte. Tudo é inútil. 

*Contém citação de "O senhor da guerra", Renato Russo.


**Literatura não precisa ser autobiografia.


***Em vez de escrever "fique bem" ou "se cuida", é mais útil comprar meu livro novo. 


@p.r.andel

segunda-feira, 15 de maio de 2023

Tempos Modernos

Saí do trabalho com a missão de fazer a fé na Loto, pois organizo pequenos bolões com alguns amigos. Deixei o Sebo X e, em dez minutos, estava na minha agência lotérica preferida: rua da Relação, quase esquina com Gomes Freire.

Umas três ou quatro pessoas na fila única (algo sempre difícil para os brasileiros respeitarem) e, ao lado, um simpático botequim. Nele, uma televisão grandona com imagem de cinema.

Cinco e pouco da tarde. Leicester versus Liverpool.

Dois clientes com os olhos arregalados diante de todos os detalhes do jogo. As três ou quatro pessoas da fila da loteria, também. Um garotinho de bicicleta para pra olhar. Futebol é um acontecimento, amigos.

Falta para o Liverpool. No exato momento, com a fila parada, converso no WhatsApp com Catalano. Somos umas dez ou doze pessoas nos arredores da televisão. Todos estamos na espectativa do que vai acontecer.

A câmera dá um close em Salah o craque egípcio. É impressionante como as tevês de hoje têm definição de imagem espetacular. Bom, o craque balbucia algo para seu companheiro, na imagem seguinte sai uma cobrança de falta maravilhosa e um golaço do Liverpool.

As pessoas riem, ficam felizes com a bela jogada. Ninguém é Liverpool ali. Só o Catalano, no WhatsApp, é Vasco, Vasco, Vasco e depois Tottenham e Internazionale de Milano.

O gol faz bem às pessoas. Melhor ainda quando ali ninguém torcia para o time que levou o gol.

Num susto a fila anda, falo com as garotas da lotérica sempre atenciosas, faço o bolão e saio. Hora de ir pra casa, depois de mais um dia de luta.

Ainda dou uma espiada no botequim, vejo um ataque do Leicester, o Liverpool dá a resposta e, em poucos segundos, junto tudo aquilo e fico pensando em como a nossa maneira de acompanhar futebol mudou. Sou do tempo em que se colocava papel celofane colorido na tela da TV, para enxergar além de preto e branco. Internet? Nem pensar. WhatsApp? O máximo que tínhamos eram os narradores no radinho, fazendo das partidas verdadeiros épicos - felizmente o rádio está aí até hoje. Jogos de times europeus, a gente só sabia pela querida revista Placar.

Antes de derramar uma lágrima, sonho em poder ver muitas e muitas partidas ainda. Hoje são tempos modernos, mas o amor é de antigamente. E falando em tradição, nessa terça tem o jogo da minha vida: Fla x Flu no Maracanã. Já são quase cinquenta anos acompanhando esse jogo que parece interminável, onde cada partida é apenas mais um capítulo. E lá vou eu fazer o velho caminho Presidente Vargas + Praça da Bandeira + Avenida Pelé até a roleta, a inesquecível rampa da UERJ e o campo dos sonhos.

O tempo vai passando, mas seja numa linda TV de alta definição ou no Maraca, pertinho da grama, o futebol é bom demais. Não é só o jogo pelo jogo, mas muita coisa em jogo, feito aquela que hipnotiza os clientes da fila de uma lotérica com uma só imagem.


TEXTO DE:

@pauloandel

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

Letra

 

Meu pai tinha uma letra maravilhosa. Eu gostava de vê-lo escrever. Ele escrevia pequenas coisas todos os dias: lista de tarefas, coisas para comprar, preços para pesquisar. Eu achava muito legal quando ia à rua com seu bilhete para comprar coisas ou realizar tarefas.

Minha letra já foi bonita, não como a dele, mas bonita também. Digitando em computadores há mais de trinta anos, ela se perdeu. Embora seja um proletário como outro qualquer, frequentemente preciso autografar livros e fazer dedicatórias. Que vergonha da minha letra! Ainda bem que ninguém reclama. Dado o retorno, as pessoas parecem gostar dos livros, ufa!

Desde criança eu era cercado de letras e números, aqueles de plástico para aprender a montar palavras e contar. Ainda me lembro como minha mãe ficou assustada ao me ver escrevendo sozinho - eu nunca tinha ido à escola. Por diversos motivos, o fato é que fiz do antigo primário uma completa zona: não fiz a primeira série, só fiz o último bimestre da segunda e o primeiro da terceira. Fui parar na quarta.

Os anos poupados no primário foram derramados na UERJ, onde gastei - melhor dizendo, investi - dias e dias com matérias muito loucas, shows, filmes, garotas lindas, futebol e conversa fiada - o esporte preferido. Me formei com dois anos a mais de curso, como todo ser humano normal, mas com uma tremenda vantagem: somada aquela experiência do primário com a da faculdade, mais a do trabalho (onde escrevi matérias e releases por anos a fio, sem assinar) e posteriormente no convívio na Livraria Berinjela, mais alguns anos de coragem e ploft - virei o que chamam de um escritor.

Isso não mudou em nada minha pobreza, minha tristeza e meu ceticismo sobre o ser humano, mas me deu uma satisfação enorme de fazer algo bem, do jeito que meu pai fazia com sua linda letra. É uma pena que ele não tenha lido um livro meu, mas todos têm a influência dele, de alguma forma.


@pauloandel

domingo, 11 de dezembro de 2022

Ainda Sobre Futebol, Apedrejamentos e Reflexão

 

Nesta manhã de domingo triste - meu amigo Caninha se foi -, parei para ler perfis diversos, admiráveis e desconhecidos, todos teorizando sobre a Copa do Mundo. Especialmente os que tentaram fazer um mergulho, digamos, mais intelectualizado sobre o tema. 


Para meu gosto e análise pessoal, entre desabafos e decepções naturais, também li um festival de besteiras sobre o assunto. Besteiras colossais, aliás. 


O futebol não é apaixonante apenas no Brasil, mas no mundo todo. A Copa do Mundo para a Terra. É um fato. E quem nutre paixão pelo esporte mais popular do planeta não é "alienado" nem vive de "ilusão" por conta dos sentimentos que desenvolveu. Muitas vezes o futebol é bálsamo para aliviar as pancadas diárias na sofrida vida brasileira.


Para quem viveu o Maracanã de verdade até 2010 e vive o esporte, explicar essa paixão no Brasil não é simples. Há uma enorme complexidade em torno do tema, que teorias acadêmicas distantes não dão conta de cobrir. O que dá para dizer é que foi uma febre nos primeiros 25 anos do século XX que nunca mais passou.


Portanto, falarei aqui como o que sou: um torcedor. É apenas o meu relato pessoal e só. 


Embora sempre tenha pertencido à maioria pobre da população brasileira, tive uma criação digna, passando por boas escolas, tendo como estudar. Passei muitas dificuldades, mas caminhei até à universidade pública, bem ao lado do Maracanã, para minha alegria 


Durante boa parte da minha vida, 25 anos, vivi no bairro mais misturado do Brasil: Copacabana. Lá, vi e conheci de tudo, porque todas as classes sociais interagem de alguma forma, com a quase exceção de parte dos milionários da Avenida Atlântica. Havia interação na escola pública que frequentei, no grupo de escoteiros que fiz parte por muitos anos, mas o único lugar em que realmente sentia integração total era no futebol - de praia, da vila onde estudei, da quadra que alugávamos com trocados no Corpo de Bombeiros. 


Quando meu pai começou a me levar ao Maracanã, logo percebi que as pessoas não eram exatamente iguais às de Copacabana (e olhe que lá era tudo misturado). Havia uma mistura única. Várias vezes, ele comprava na bilheteria ingressos extras, três ou quatro, e distribuía para os garotos que pediram dinheiro para comprar um. Eles pulavam enlouquecidos, felizes, se abraçavam e subiam a grande rampa do Maracanã com suas roupas simples, às vezes sem chinelos e isso me emociona porque me leva a mais de quarenta anos atrás. 


Eram crianças alienadas ou crianças de posse e total vivência de sua única alegria? 


Os melhores momentos de minha vida com meu pai foram no Maracanã, sentado ao lado dele, espremido numa multidão. Cheio de pessoas diferentes, de todos os jeitos, de todas as cores, de todas as classes. Juntos, lamentamos grandes gols dos adversários e comemoramos muito os nossos. Vimos lindos espetáculos de bandeiras e muito, muito pó de arroz no ar. Não era só o jogo, mas chegar cedo, ver a multidão se aproximando, mais de cem mil pessoas pobres e ricas, pretas e brancas, gordas e magras, gays e heterossexuais, todas reunidas em torno do gramado para apreciar arte, num tempo em que tínhamos craques a granel. 


Vendo um filme arrebatador, ou uma peça espetacular de teatro, ou ainda um show no inesquecível Canecão, você chegava a quinhentas, mil ou duas mil pessoas reunidas. Por vários motivos, nestes palcos sagrados e fundamentais, não havia a devida mistura social da cidade do Rio. No Maracanã, sim, e com cinquenta ou setenta vezes mais gente. Dá para compreender a dimensão? Isso a cada domingo durante quase sessenta anos, desde 1950. 


Gostaria de lembrar que dois dos maiores atores brasileiros de todos os tempos eram completamente apaixonados por futebol: Sérgio Britto e Ítalo Rossi. Se fosse fazer uma lista de músicos, passaria o dia escrevendo, então rapidamente me lembro de João Nogueira, Cartola, João Gilberto e Ciro Monteiro, só para começar. 


No Maracanã a gente se sentia gente de verdade, integrada, mesmo que o próprio estádio tivesse sido construído com certos apartes - casos da geral e da arquibancada, por exemplo -, mas eles não deram certo. Ali se vivia o único local do Rio de Janeiro onde o riso, o grito e a lágrima do homem pobre tinham o mesmo tamanho do cidadão rico. O único local. Nem o Carnaval, outro palco espetacular, tinha tanta oferta a preços populares. 


Completamente louco por futebol, passei a ler todos os jornais possíveis em casa diariamente. Isso me levou às notícias políticas, de cotidiano, da cidade, de arte e cultura, isso com doze anos de idade. Foi o futebol que abriu espaço para meus outros interesses culturais, que não são poucos - vão de Estatística a botequins. E muitos anos depois de estar com meu pai de mãos dadas no Maracanã, foi o futebol que me abriu as portas para ser um escritor publicado, e consequentemente podendo publicar duas dezenas de livros sobre outros assuntos, no que sou eternamente grato. 


Monstros sagrados das letras como Eduardo Galeano, Nelson Rodrigues, Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade e tantos outros celebraram o futebol em suas obras. É impossível crer que o fizeram por alienação. 


Por outro lado, como em qualquer estrato da sociedade, o futebol carrega problemas em seu entorno e até mesmo nas vísceras. Há quem prefira abominá-lo por isso. Eu prefiro procurar nele o que tem de melhor e, na minúscula parte que me cabe, criticar e denunciar o que considero errado e injusto. 


O futebol me deu sensação de pertencimento a grupos, me trouxe amigos, me fez ir a veículos de rádio e TV ao vivo que eu jamais imaginaria. O futebol me permitiu passar horas conversando com personalidades como Gilberto Gil e Maria Bethânia. Conheci lugares, viajei e mergulhei tanto em estádios confortáveis como em verdadeiros muquifos para ver jogos com milhares de torcedores ou uns cinco, dez. 


Anos depois de publicar meus primeiros livros, passei a produzir obras de outros escritores, em vários casos de futebol. É alienação ou produção? 


Por fim, gostaria de dizer o seguinte: o Brasil não vai melhorar em nada porque a Seleção Brasileira é eliminada da Copa do Mundo e então o povo "retorna à realidade". Diferente de criticar a atuação, apedrejar o futebol não acrescenta nada ao grande debate que todos esperam para que o país saia desse lodaçal. Pelo contrário: o futebol é um dos grandes símbolos da identidade brasileira e deve ser valorizado. 


É certo que alguns jogadores famosos estão desalinhados da realidade brasileira e parecem despreocupados com seu povo. Só que eles passam e o esporte fica. Aí está há mais de 120 anos fincado no coração dos brasileiros. E é bom que se diga: mais de 90% dos jogadores de futebol no Brasil não ganham dois salários mínimos mensais. 


Tanto faz se é numa arena moderna ou num campinho minúsculo. O futebol une as pessoas, integra, gera convivências e afetos e, num país onde mais de 70 milhões de pessoas oscilam entre a precarização e a miséria, muitas vezes ele é o único momento de alegria - às vezes até de paz. Podem ter certeza: em muitas vezes, o caldo social brasileiro não entornou de vez porque lá estava o futebol ajudando a acalmar os ânimos, em muitas esferas. 


Em vez de posts empolados e com teorias confusas, muitos intelectuais contribuiriam para a discussão sobre futebol fazendo exatamente o que fazem com suas temáticas preferidas: pesquisando e estudando em vez de chutar - muito mal, por sinal.




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Paulo-Roberto Andel, escritor e estatístico carioca, é autor/coautor de aproximadamente 40 livros físicos e digitais sobre futebol, poesia, crônicas, humor e política. Edita o site Panorama Tricolor, o blog otraspalabras!, colabora com o Correio da Manhã e o Museu da Pelada. Sobre o Fluminense, seu time de coração, publicou 20 livros.

domingo, 28 de junho de 2020

Plágios e Delações

PLÁGIOS E DELAÇÕES

I

Tinha dezenove anos. Era uma fase boa mas também braba. A faculdade era uma maravilha mas não dava pra ir a pé, então a luta era pelo dinheiro do ônibus. Se desse, lanchava.

Fiz uma prova de Álgebra Linear, tirei 4,5. Péssimo. Precisava de 9,5 para passar. Um amigo, com a maior boa vontade, que tinha tirado 9 ou 10, me deu aulas particulares grátis. Estudei pacas Chegou a segunda prova, a correção era na hora. DEZ. Quase caí para trás. Maior orgulho.

Saindo da sala, está o amigo com a cara branca de leite, nervoso, suando. Prova em branco. O cara que me deu aulas e me fez passar estava no buraco. Sem que ele tivesse me pedido, fui uma besta e larguei a minha prova na mesa dele. Claro que eu estava errado, muito errado, mas achei injusto demais que a pessoa que me ajudou estivesse no chão ali. Foi uma besteira de um segundo.

Nervoso, ele tinha a prova nas mãos e se enrolou. Não era de cola. A professora veio, desconfiou, mexeu no material e deu o flagrante na prova novinha, dez da silva. Uma gata da sala me ligou à tarde, contou o desastre e aí me senti culpado duas vezes.

Passou uma semana de agonia. Cheguei a procurar a professora na secretaria, não encontrei, sabia que teria que acertar aquilo. Na semana seguinte era a prova final e, quando estou sentado no hall da faculdade, ela veio e educadamente pediu para falar comigo. Fomos até a sala onde seria aplicada a prova. E quando lá chegamos, eu fiz o que sempre esperam de mim, errando ou não:

- Professora, a culpa daquilo foi 100% minha. O amigo não me pediu nada, estou errado e, se a senhora quiser, tem todo o direito de me reprovar inclusive. Eu só consegui passar porque ele me deu aulas, ele me tirou xerox de graça, eu estou sem dinheiro, o meu dez só aconteceu por causa dele. Não devia ter feito aquilo e não tem justificativa, mas explicação. Mil desculpas, estou errado, você decide.

(Silêncio típico de uma mulher madura, refletindo diante daquilo)

- Paulo, eu até entendo. O que eu não esperava era que fosse logo você a fazer isso que tanta gente gosta aqui. Eu vejo quando você está no corredor e o pessoal gosta de você.

Sem brigas, sem notas, sem zero, a professora Regina me deu uma das maiores lições de toda a minha vida. Seja quem você for, você tem uma reputação a zelar. E não dá pra ser mais ou menos bom ou fazer mais ou menos o bem, ou ainda aplicar à ética um formato elástico por casuísmo. De lá para cá, eu errei muitas outras vezes, mas o mesmo cara que fez aquela bobagem também foi o que por 25 anos calculou o principal índice de custas cartorárias do Rio de Janeiro, aplicado a todos os imóveis comercializados, sem deixar uma vírgula para que peritos viessem pra cima, como faz um papa defunto na hora capital.

Agradeci Regina de coração. Não a vejo há 25 anos. Espero que esteja bem. Ela foi uma das pessoas que salvou a minha vida, mas nem sabe. Meu amigo está bem, casado, feliz, é uma boa pessoa, das mais legais e divertidas que conheci na UERJ.

II

A prova era difícil paca, a professora gostava de mim de graça, tinha um pessoal meio bobo que disputava a liderança intelectual da sala com as maiores notas, que na prática não significavam nada.

Veio a prova, com consulta (nunca é fácil), um zum-zum-zum na sala, eu brigando com a calculadora. Pesquisar na matéria é diferente de copiar provas antigas com nota 10. Fiz de cara limpa. Teve gente que nem usou a calculadora pra estimar amostra. Pqp...

No dia do resultado, correção na mesa da professora, ela me chama. Sempre por Paulo Roberto, tal como minha mãe fazia e a Marina faz às vezes:

- Paulo Roberto, sei do seu potencial desde outros períodos, mas você precisa se aplicar mais, a nota é apenas 6,5.

(Duro que nem um coco, meu pai no auge da depressão e alcoolismo, só ia em casa pra dormir e tomar banho, estágio no aperto, aula de manhã e de noite, a Era Collor...)

(Ouço risinhos de dois ou três, que tinham tirado 10 graças ao artifício da prova copiada. O sangue subiu)

- Cristina, minha nota não foi baixa. É que sua prova é difícil e eu a fiz com consulta à matéria, não copiando uma prova antiga idêntica. Sinceramente, se você prestasse mais atenção às provas, já teria percebido que tem gente fazendo sem usar a calculadora, o que é tecnicamente impossível. Claro, tem gente só copiando. Não é problema de aplicação, é de caráter. Duvido que alguém que riu de mim há pouco me desminta.

(Silêncio rubro-negro na hora do gol de barriga, que nem tinha acontecido na época)

Acabei passando, segui, me formei com muita luta. Nunca fui santo mas tenho certeza de que acerto muito mais do que erro, e não me contento em ser bom mas sim em fazer o bem. Demorei mais tempo do que devia para me formar porque não optei por caminhos mais fáceis.

A professora deve ter me escutado. No período seguinte a farra acabou, não teve mais consulta e a matéria passou a ser carne de pescoço. Os dois ou três do risinho passaram a não falar comigo, o que não fez falta nenhuma.

III

Meu humilde diploma foi conquistado com muito suor. Vai fazer 26 anos daqui a menos de dois meses. Passei para dois mestrados, mas desisti por falta de bolsa e de dinheiro. Poderia ter sido um bom professor, é o que dizem. Depois passei por três faculdades, larguei todas pela metade, virei escritor, montei blogs, virei repórter, remontei meu sebo e estou lutando para sobreviver. Vamos ver se dá.

IV 

Perto de ter um ministro da Educação que mente sobre um doutorado que não tem, além de estar em xeque por plágio na tese de mestrado, cá entre nós, eu estou bem na fita. O problema é que, além da minha total oposição a esse desgoverno fascista, escrevi 28 livros como autor e coautor, um currículo que é indesejável para esses transtornados de terra plana, cloroquina e rachadinha. É isso.

@pauloandel ( clique )

Paulo-Roberto Andel é escritor com várias obras publicadas, bacharel em Estatística, radialista e blogueiro.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Ainda Vale a Pena


(Na foto, Falcão, Luís Pereira e Juari. Presentes da minha mãe em 1979, com seu salário de manicure).

Neste momento milhões de brasileiros estão tendo aquela que pode ser a sua única alegria do dia. A maioria do povo, aliás.

É impossível não torcer por eles e por mim mesmo, porque também sou um homem pobre, mais perto do fim do que do começo e também choro sempre. Tenho muitos motivos para isso, mas o principal deles é que não sou um escroque que só pensa em si. E qualquer pessoa que se preocupe com o próximo no Brasil acaba chorando.

No meio do caminho, tem os estudantes fuzilados, a moça que vai comprar uma roupa e some, os policiais assassinados, o desemprego, a fome, o caos. Está tudo na rua de qualquer grande cidade, só não vê quem enxerga com olhar hipócrita.

E por uma hora e meia o Brasil tem praticamente um cessar-fogo. Eu tenho um cessar-fogo no meu peito triste e doente.

Em 1970 eu era um bebê em casa e meus pais choravam porque meu tio estava preso, tomando porrada da ditadura num prédio que fica a 200 metros da minha casa.

Em 1978 eu saí à rua para pagar a mensalidade da escola no intervalo de Brasil x Argentina, na casa da diretora reaça. Uma chuva de papel picado na rua, linda.

Em 1982, andei com meus amigos pelas ruas desertas de Copacabana até a Lagoa, para jogar bola depois dos 3 a 2 da Itália. A bola caiu na Lagoa, sumiu rapidinho e voltamos desolados. Não havia um carro na rua.

Em 1990 a gente estava na casa do Luizinho. Nosso Xuru xingando o mundo inteiro depois do gol de Caniggia. A final de 1994 eu ouvi pelo rádio sozinho: não tinha dinheiro nem TV, no máximo esperança no futuro.

Em 1998, 2002 e 2006 em casa, com minha família. Foram tempos felizes. A de 2010 foi no trabalho - um jogo foi especial, já escrevi sobre isso. Em 2014, a festa foi bonita demais, apesar do desastre no campo: dava uma sensação de pertencimento ao país vendo as ruas, as gentes.

Agora, do jeito que dá, o futebol é algum bálsamo. A turma no botequim humílimo chorando - sim - com o golaço de CR7 no empate com a Espanha. Todo mundo vibrando com a Islândia contra a Argentina. E daí que a Coreia estava eliminada? O resultado aí está.

Eu não tenho compromisso algum com dirigentes corruptos, empresários de jogadores, jogadores deslumbrados, jornalistas pernósticos e prepotentes - que todos se explodam. O meu compromisso é com o gol, com o garoto do Alemão e sua camisa escrita a caneta, com os abraços, com a solidariedade, com os botões de panelinha, com a saudade da minha família. Se existe lama no futebol - e como há! -, a culpa não é dele mas sim de quem o controla ou tenta controlar - geralmente são os mesmos, que ninguém se iluda.

O mundo já está cheio de gente querendo decidir o que se pode ou não, mas que mal sabe de si mesma. O que eu quero é só uma horinha de alegria entre as lágrimas diárias. Penso nos ambulantes sorrindo agora, os trabalhadores humildes, os garotos sonhando em fazer um gol numa Copa. Eu já fui um garoto e sei bem o valor disso.

A Seleção venceu. Pode ter sido o penúltimo passo, pode ter sido o terceiro rumo ao hexa, pode ser qualquer coisa. Não importa: houve uma pequena felicidade, especialmente para quem quase nunca a tem. É como o amor, que vence até quando fracassa, pelo simples existir.

Ainda vale a pena.

EDTE TEXTO PERTENCE AO ESCRITOR PAULO-ROBERTO ANDEL