Sobra-lhe a criatividade proveniente das classes oprimidas, falta-lhe os recursos suprimidos pela classe opressora.
quarta-feira, 23 de outubro de 2024
A Guerra do Paraguai nunca acabou
segunda-feira, 8 de janeiro de 2024
Zagallo, o odiado mais querido do mundo
Zagallo: Por quem os sinos dobram
Dado o inevitável da vida, a passagem de Zagallo sugere muitas reflexões sobre o futebol brasileiro, onde ele é uma página eterna do nosso esporte há décadas.
Como jogador, reinou por Flamengo e Botafogo depois de passar pelo America. Do jovem recruta do Exército no Maracanã diante do Uruguai ao campeão mundial na Suécia, a distância é de apenas oito anos. Do quase corte da Seleção à consagração em 1958, com direito a gol do título, foram apenas alguns meses. E dos palcos suecos para o Chile, apenas mais quatro anos. Se parássemos por aqui, o Velho Lobo já teria um currículo monumental, mas o destino lhe reservou muito mais.
Não há dúvidas de que a maior Seleção Brasileira da história começou a ser desenhada por João Saldanha, mas também é impossível não reconhecer que o Brasil do México 1970 foi todo reescalado e adaptado por Zagallo, dos cinco camisas 10 no ataque ao miolo de zaga com Piazza recuado. É o time dos sonhos que se tornaram realidade.
Do campeão pelo Fluminense em 1971 ao gol de falta de Petkovic em 2001, Zagallo viveu trinta anos dourados. Ganhou e perdeu títulos, viveu novas emoções com a Seleção Brasileira. Comemorou o Brasil tetracampeão mundial nos EUA como coordenador técnico, foi vice mundial na França em 1998. Estava no Botafogo quando o Alvinegro alcançou o recorde brasileiro de invencibilidade em 1978, com 52 jogos. E faturou petrodólares nos primórdios do futebol árabe.
Seria impossível para um homem de tamanho mundial não se envolver em controvérsias e polêmicas pelo caminho, mas todas são pequenas diante de sua estatura. Tão grande que já era imortal muito antes da própria morte, anos depois de sua última grande aparição pública, conduzindo a tocha olímpica no Rio de Janeiro para os jogos de 2016.
Por fim, sua longa e gloriosa trajetória também se mistura ao folclore, como na superstição com o número 13 que sempre lhe acompanhou. Se pensarmos em expressões como "Brasil campeão" ou "Seleção de Ouro", ambas possuem exatas treze letras - e fazem todo sentido como o desfecho de uma vida espetacular, vitoriosa e que agora deita em berço esplêndido.
É que os sinos dobram pela vitória.
TEXTO DE:
terça-feira, 19 de setembro de 2023
Felipe Massa em Cheque
terça-feira, 15 de agosto de 2023
Ali-Neymar e os 40 parças
sexta-feira, 19 de maio de 2023
And the Oscar Goes To...
Chegamos ao Século XXI, consagrando novos valores éticos e morais que alcançam todas as atividades humanas, inclusive a prática desportiva.
Em um mundo plural e absolutamente diverso, a homofobia e o preconceito, outrora tão presente em ginásios e gramados, não são mais tolerados, sendo para além disso, punidos com rigor, por ocasião de suas respectivas ocorrências.
Nessa nova percepção de valorativa, posturas que até o Século passado, mais do que toleradas, eram aplaudidas, hoje, são objetos de repúdio, tamanha a incivilidade e incompatibilidade com o mínimo de preceitos éticos atualmente vigentes na culturas do esporte.
A famigerada "Lei Gérson" (propaganda televisiva dos anos 1970, do cigarro Vila Rica, onde o Canhotinha – garoto propaganda – dizia que “gostava de levar vantagem em tudo”), outrora tão celebrada, não virou a passagem para o Século XXI sendo olhada com bons olhos.
Se, na Copa de 1962, Nilton Santos foi celebrado por sua "malandragem", com aqueles passinhos que nos livraram da marcação de um pênalti, na partida contra a Espanha, o mesmo conceito favorável não teve Rivaldo, já em 2002, na ocasião em que levou às mãos ao rosto embora tivesse tomado uma bolada no estômago.
Essa "esperrrrrteza" parece não ser mais adequada e tolerada no esporte.
Ainda assim, ela acontece com alguma recorrência, contando com a complacência de autoridades que têm o poder/dever de punir seus autores.
Sendo que, a despeito do aludido repúdio que tais comportamentos têm merecidamente recebido na atualidade, parece que, para alguns jogadores ou, talvez, para alguns clubes, haja uma espécie de salvo conduto, onde essas ações são absolutamente ignoradas pelos árbitros de campo e de vídeo, não havendo também, qualquer reação dos tribunais esportivos.
Exemplo fidedigno do que ora se comenta, é o Jogador Gabriel Barbosa, o Gabibol, tal como assim é conhecido, mas que sua fama, para além dos gols que marca, também é composta de lances seguidos de simulação e agressões escondidas.
Na partida da última terça-feira (Fla-Flu, 0 a 0, pela Copa do Brasil), não foi diferente, de forma vil e absolutamente covarde, Gabriel pisou na canela do jogador adversário, fingindo-se de bom moço, em lance que todo estádio viu, bem como, aqueles que acompanhavam pela televisão, mas que, de forma inaceitável foi ignorado pela arbitragem.
Ainda, nesse mesmo jogo, em uma cena patética, digna de uma verdadeira ópera bufa, tamanho o ridículo que foi, Gabigol simulou com estardalhaço uma agressão supostamente praticada pelo zagueiro Manoel, só Fluminense, quando ele sequer o encostou.
Lembrando que, alguns dias antes, em idêntica cena de ator canastrão de quinta categoria, Gabriel conseguiu convencer o aparvalhado e tendencioso árbitro do jogo Fla x Bahia de que fora agredido no rosto pelo adversário, quando em realidade, o braço do zagueiro baiano resvalou no braço do centroavante Rubro-negro.
Ainda assim, Gabigol foi premiado pela sua “esperrrrrteza” e, o tricolor baiano terminou o jogo com dois jogadores a menos.
Diante disso, fica uma simples e necessária indagação: Até quando? Isto é, até quando teremos que tolerar esse tipo de comportamento, ou ainda, quando levantamos voz contra esse absurdo, somos chamados de chorões ou mimizentos?
Ora, se o cantado e decantado "Fair play" é valor essencial à disputa esportiva, fundamental seria que as condutas que caminham na direção absolutamente oposta sejam repudiadas e punidas. Essa é a nossa expectativa. Já passou da hora de Gabibol ser punido pela sua conduta anti esportiva e inaceitável, dentro dos gramados.
Do contrário, essa história de Fair play vira conversa para boi dormir e quem sabe, se não passa a ser mais uma das categorias do Oscar, a do troféu na categoria de Ator Cara de Pau.
TEXTO DE:
Advogado e Professor Marcelo de Carvalho, membro da Frente Ampla Tricolor
segunda-feira, 15 de maio de 2023
Tempos Modernos
Saí do trabalho com a missão de fazer a fé na Loto, pois organizo pequenos bolões com alguns amigos. Deixei o Sebo X e, em dez minutos, estava na minha agência lotérica preferida: rua da Relação, quase esquina com Gomes Freire.
Umas três ou quatro pessoas na fila única (algo sempre difícil para os brasileiros respeitarem) e, ao lado, um simpático botequim. Nele, uma televisão grandona com imagem de cinema.
Cinco e pouco da tarde. Leicester versus Liverpool.
Dois clientes com os olhos arregalados diante de todos os detalhes do jogo. As três ou quatro pessoas da fila da loteria, também. Um garotinho de bicicleta para pra olhar. Futebol é um acontecimento, amigos.
Falta para o Liverpool. No exato momento, com a fila parada, converso no WhatsApp com Catalano. Somos umas dez ou doze pessoas nos arredores da televisão. Todos estamos na espectativa do que vai acontecer.
A câmera dá um close em Salah o craque egípcio. É impressionante como as tevês de hoje têm definição de imagem espetacular. Bom, o craque balbucia algo para seu companheiro, na imagem seguinte sai uma cobrança de falta maravilhosa e um golaço do Liverpool.
As pessoas riem, ficam felizes com a bela jogada. Ninguém é Liverpool ali. Só o Catalano, no WhatsApp, é Vasco, Vasco, Vasco e depois Tottenham e Internazionale de Milano.
O gol faz bem às pessoas. Melhor ainda quando ali ninguém torcia para o time que levou o gol.
Num susto a fila anda, falo com as garotas da lotérica sempre atenciosas, faço o bolão e saio. Hora de ir pra casa, depois de mais um dia de luta.
Ainda dou uma espiada no botequim, vejo um ataque do Leicester, o Liverpool dá a resposta e, em poucos segundos, junto tudo aquilo e fico pensando em como a nossa maneira de acompanhar futebol mudou. Sou do tempo em que se colocava papel celofane colorido na tela da TV, para enxergar além de preto e branco. Internet? Nem pensar. WhatsApp? O máximo que tínhamos eram os narradores no radinho, fazendo das partidas verdadeiros épicos - felizmente o rádio está aí até hoje. Jogos de times europeus, a gente só sabia pela querida revista Placar.
Antes de derramar uma lágrima, sonho em poder ver muitas e muitas partidas ainda. Hoje são tempos modernos, mas o amor é de antigamente. E falando em tradição, nessa terça tem o jogo da minha vida: Fla x Flu no Maracanã. Já são quase cinquenta anos acompanhando esse jogo que parece interminável, onde cada partida é apenas mais um capítulo. E lá vou eu fazer o velho caminho Presidente Vargas + Praça da Bandeira + Avenida Pelé até a roleta, a inesquecível rampa da UERJ e o campo dos sonhos.
O tempo vai passando, mas seja numa linda TV de alta definição ou no Maraca, pertinho da grama, o futebol é bom demais. Não é só o jogo pelo jogo, mas muita coisa em jogo, feito aquela que hipnotiza os clientes da fila de uma lotérica com uma só imagem.
TEXTO DE:
sexta-feira, 28 de abril de 2023
Decadence sans elegance
Estarão os amantes (eu sou um deles) das músicas do Lobão dizendo que eu errei no titulo deste texto.
Afinal de contas, o nome da canção é “Decadence avec elegance”, que na tradução significa decadência com elegância.
O problema senhores é que o Fluminense incomoda.
Se sempre importunou a torcida arco-íris (criada em 1976, por ocasião do nosso jogo contra o Corinthians – jamais foi invasão) mesmo nos tempos de vacas magras, imagina agora que acaba de conquistar o bicampeonato carioca, que está voando na Copa do Brasil e na Libertadores, jogando não só o melhor futebol do Brasil na atualidade. Arrisco inclusive a dizer que, nos dias que correm, poucas equipes do mundo tem a organização e o volume de jogo do Tricolor.
Ora senhores, somos motivos de inveja.
E nesta semana, a ciumeira tem nome próprio: os torcedores (órfãos do euriquismo) do decadente Clube de REGATAS Vasco da Gama.
Isso é fato!
Começando pelo Jornalista Fábio de Azevedo, Professor Universitário, mentiroso que nos acusa de racismo. Pobre rapaz (que já alimentou a sua família graças ao dinheiro que ganhava quanto trabalhou na assessoria de imprensa do Fluminense)!
Como bem defini, um bobo que cuspiu no prato que comeu. Recebeu algumas aulas de História (uma delas de minha parte) que abriram os seus olhos para que clube realmente abraçou o Nazismo através de uma torcida organizada e o Fascismo – basta entender o que acontecia no Distrito Federal, nos anos 1930 e 1940.
Por outro lado eis que surge a figura do Engenheiro de Produção, Rony Meisler, CEO da Reserva, marca de roupas, que também nos acusou de racismo. Deu um chute na própria cabeça e um tiro no saco. De saída, perdeu o contrato que tinha com o Tricolor das Laranjeiras. Outro desinformado ou outro mal intencionado ou outro invejoso ou todas as respostas anteriores.
E me perdoem a piada, mas o CEO não serviu nem para ficar na RESERVA.
Mas o que está acontecendo com os vascaínos?
Tanto lhes incomoda o sucesso do Fluminense?
E para culminar hoje aparece o iluminado Fernando Lira, vulgo Zé Colmeia, figurinha carimbada como parça do Romário no início deste século. Para quem não sabe o significado de parça, eu explico: não passa de um bajulador, pessoa sem estofo e sem conteúdo.
Hoje, esse “inteligente cidadão” gravou um vídeo (produziu e divulgou prova material contra si) ameaçando de forma violenta a torcida do Fluminense, por causa da carga de ingressos que o Clube de REGATAS Vasco da Gama receberá para a partida do próximo dia 6 de maio, em que o Tricolor será o mandante. Alerta e prega o elemento que para que o jogo do 2º turno, se implante o terror contra os nossos torcedores na Barreira do Vasco, dizendo que “o terror começa na Cancela”.
O dia em que tamanho for documento, ser humano não corre de barata. Quem milita no meio dos movimentos organizados sabe que esse Zé Colmeia tem menos atitude do que qualquer Catatau.
Conclusão: No final da tarde o Clube de REGATAS Vasco da Gama, lança uma emotiva nota, onde literalmente pede arrego e exalta a paz no futebol.
Portanto meu caro João Luiz Woerdenbag Filho (esse é o nome do cantor Lobão), perdoe-me a ousadia, mas no caso do Clube de REGATAS Vasco da Gama a melhor definição é: “Decadence sans elegance”...
Ou seja:
DECADÊNCIA SEM ELEGÂNCIA!!!
No mais meus caros Fábio Azevedo, Rony Meisler e Zé Colmeia, fica o conselho:
FAÇAM O L.
segunda-feira, 30 de janeiro de 2023
Fluminense x Botafogo, analisamos o passo a passo do pênalti polêmico
A próxima sequência de imagens mostra Arias indo em direção ao banco de reservas, visivelmente contrariado. Ele faz sinal com a mão na direção da boca, como se dissesse que não falaria mais nada.
As próximas duas imagens mostram que enquanto o juiz retira os jogadores do Botafogo da área, Keno parece conversar algo com Ganso.
Antes de colocar bola no chão, Calegari olha para Samuel Xavier e o juiz. E volta a olhar na direção de Ganso. Depois abaixa um pouco o olhar, como se a decisão tomada fosse irrevogável. Ele coloca a bola no chão, e enxuga o rosto com a camiseta. Não dá para perceber se é por nervosismo.
Após colocar a bola na marca, Calegari ouve a última instrução do juiz, e toma distância para a cobrança. Ele olha para o goleiro do Botafogo e faz um sinal de deboche com a língua e um sorriso. O goleiro permanece sério, em silêncio, olhando fixamente para o rosto de Calegari.
Enquanto Calegari espera o apito do juiz, Ganso aparece caminhando de cabeça baixa. Calegari corre, bate e o goleiro Lucas Perri defende.
domingo, 8 de janeiro de 2023
Pelé, por Nelson Rodrigues
Meu personagem da semana (crônica de Nelson Rodrigues sobre Pelé em 1958)
texto foi publicado originalmente na revista Manchete Esportiva
29 de dezembro de 2022 | 16h41
Depois do jogo América x Santos, seria um crime não fazer de Pelé o meu personagem da semana. Grande figura, que o meu confrade Albert Laurence chama de “o Domingos da Guia do ataque”. Examino a ficha de Pelé e tomo um susto: 17 anos! Há certas idades que são aberrantes, inverossímeis. Uma delas é a de Pelé. Eu, com mais de 40, custo a crer que alguém possa ter 17 anos, jamais. Pois bem: verdadeiro garoto, o meu personagem anda em campo com uma dessas autoridades irresistíveis e fatais. Dir-se-ia um rei, não sei se Lear, se imperador Jones, se etíope. Racialmente perfeito, do seu peito parecem pender mantos invisíveis. (...)
O que nós chamamos de realeza é, acima de tudo, um estado de alma. E Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável: a de se sentir rei, da cabeça aos pés. Quando ele apanha a bola e dribla um adversário, é como quem enxota, quem escorraça um plebeu ignaro e piolhento.
E o meu personagem tem uma tal sensação de superioridade que não faz cerimônias. Já lhe perguntaram: “Quem é o maior meia do mundo?” Ele respondeu, com a ênfase das certeza eternas: “Eu”. Insistiram: “Qual é o maior ponta do mundo?” E Pelé: “Eu”. Em outro qualquer, esse desplante faria rir ou sorrir. Mas o fabuloso craque põe no que diz uma tal carga de convicção, que ninguém reage e todos passam a admitir que ele seja, realmente, o maior de todas as posições. Nas pontas, nas meias e no centro, há de ser o mesmo, isto é, o incomparável Pelé.
Vejam o que ele fez, outro dia, no já referido América x Santos. Enfiou, e quase sempre pelo esforço pessoal, quatro gols em Pompéia. Sozinho, liquidou a partida, liquidou o América, monopolizou o placar. Ao meu lado, um americano doente estrebuchava: “Vá jogar bem assim no diabo que o carregue!”.
De certa feita, foi até desmoralizante. Ainda no primeiro tempo, ele recebe o couro no meio do campo. Outro qualquer teria despachado. Pelé, não. Olha para frente e o caminho até o gol está entupido de adversários. Mas o homem resolve fazer tudo sozinho. Dribla o primeiro e o segundo. Vem-lhe ao encalço, ferozmente, o terceiro, que Pelé corta sensacionalmente. Numa palavra: sem passar a ninguém e sem ajuda de ninguém, ele promoveu a destruição minuciosa e sádica da defesa rubra.
Até que chegou um momento em que não havia mais ninguém para driblar. Não existia uma defesa. Ou por outra: a defesa estava indefesa. E, então, livre na área inimiga, Pelé achou que era demais driblar Pompéia e encaçapou de maneira genial e inapelável.(...)
Na Suécia, ele não tremerá de ninguém. Há de olhar os húngaros, os ingleses, os russos de alto a baixo. Não se inferiorizará diante de ninguém. E é dessa atitude viril e mesmo insolente que precisamos. Sim, amigos: aposto minha cabeça como Pelé vai achar todos os nossos adversários uns pernas de pau.=
Por que perdemos, na Suíça, para a Hungria? Examinem a fotografia de um e outro time entrando em campo. Enquanto os húngaros erguem o rosto, olham duro, empinam o peito, nós baixamos a cabeça e quase babamos de humildade. Esse flagrante, por si só, antecipa e elucida a derrota. Com Pelé no time, e outros como ele, ninguém irá para a Suécia com a alma dos vira-latas. Os outros é que tremerão diante de nós.
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domingo, 11 de dezembro de 2022
Ainda Sobre Futebol, Apedrejamentos e Reflexão
Nesta manhã de domingo triste - meu amigo Caninha se foi -, parei para ler perfis diversos, admiráveis e desconhecidos, todos teorizando sobre a Copa do Mundo. Especialmente os que tentaram fazer um mergulho, digamos, mais intelectualizado sobre o tema.
Para meu gosto e análise pessoal, entre desabafos e decepções naturais, também li um festival de besteiras sobre o assunto. Besteiras colossais, aliás.
O futebol não é apaixonante apenas no Brasil, mas no mundo todo. A Copa do Mundo para a Terra. É um fato. E quem nutre paixão pelo esporte mais popular do planeta não é "alienado" nem vive de "ilusão" por conta dos sentimentos que desenvolveu. Muitas vezes o futebol é bálsamo para aliviar as pancadas diárias na sofrida vida brasileira.
Para quem viveu o Maracanã de verdade até 2010 e vive o esporte, explicar essa paixão no Brasil não é simples. Há uma enorme complexidade em torno do tema, que teorias acadêmicas distantes não dão conta de cobrir. O que dá para dizer é que foi uma febre nos primeiros 25 anos do século XX que nunca mais passou.
Portanto, falarei aqui como o que sou: um torcedor. É apenas o meu relato pessoal e só.
Embora sempre tenha pertencido à maioria pobre da população brasileira, tive uma criação digna, passando por boas escolas, tendo como estudar. Passei muitas dificuldades, mas caminhei até à universidade pública, bem ao lado do Maracanã, para minha alegria
Durante boa parte da minha vida, 25 anos, vivi no bairro mais misturado do Brasil: Copacabana. Lá, vi e conheci de tudo, porque todas as classes sociais interagem de alguma forma, com a quase exceção de parte dos milionários da Avenida Atlântica. Havia interação na escola pública que frequentei, no grupo de escoteiros que fiz parte por muitos anos, mas o único lugar em que realmente sentia integração total era no futebol - de praia, da vila onde estudei, da quadra que alugávamos com trocados no Corpo de Bombeiros.
Quando meu pai começou a me levar ao Maracanã, logo percebi que as pessoas não eram exatamente iguais às de Copacabana (e olhe que lá era tudo misturado). Havia uma mistura única. Várias vezes, ele comprava na bilheteria ingressos extras, três ou quatro, e distribuía para os garotos que pediram dinheiro para comprar um. Eles pulavam enlouquecidos, felizes, se abraçavam e subiam a grande rampa do Maracanã com suas roupas simples, às vezes sem chinelos e isso me emociona porque me leva a mais de quarenta anos atrás.
Eram crianças alienadas ou crianças de posse e total vivência de sua única alegria?
Os melhores momentos de minha vida com meu pai foram no Maracanã, sentado ao lado dele, espremido numa multidão. Cheio de pessoas diferentes, de todos os jeitos, de todas as cores, de todas as classes. Juntos, lamentamos grandes gols dos adversários e comemoramos muito os nossos. Vimos lindos espetáculos de bandeiras e muito, muito pó de arroz no ar. Não era só o jogo, mas chegar cedo, ver a multidão se aproximando, mais de cem mil pessoas pobres e ricas, pretas e brancas, gordas e magras, gays e heterossexuais, todas reunidas em torno do gramado para apreciar arte, num tempo em que tínhamos craques a granel.
Vendo um filme arrebatador, ou uma peça espetacular de teatro, ou ainda um show no inesquecível Canecão, você chegava a quinhentas, mil ou duas mil pessoas reunidas. Por vários motivos, nestes palcos sagrados e fundamentais, não havia a devida mistura social da cidade do Rio. No Maracanã, sim, e com cinquenta ou setenta vezes mais gente. Dá para compreender a dimensão? Isso a cada domingo durante quase sessenta anos, desde 1950.
Gostaria de lembrar que dois dos maiores atores brasileiros de todos os tempos eram completamente apaixonados por futebol: Sérgio Britto e Ítalo Rossi. Se fosse fazer uma lista de músicos, passaria o dia escrevendo, então rapidamente me lembro de João Nogueira, Cartola, João Gilberto e Ciro Monteiro, só para começar.
No Maracanã a gente se sentia gente de verdade, integrada, mesmo que o próprio estádio tivesse sido construído com certos apartes - casos da geral e da arquibancada, por exemplo -, mas eles não deram certo. Ali se vivia o único local do Rio de Janeiro onde o riso, o grito e a lágrima do homem pobre tinham o mesmo tamanho do cidadão rico. O único local. Nem o Carnaval, outro palco espetacular, tinha tanta oferta a preços populares.
Completamente louco por futebol, passei a ler todos os jornais possíveis em casa diariamente. Isso me levou às notícias políticas, de cotidiano, da cidade, de arte e cultura, isso com doze anos de idade. Foi o futebol que abriu espaço para meus outros interesses culturais, que não são poucos - vão de Estatística a botequins. E muitos anos depois de estar com meu pai de mãos dadas no Maracanã, foi o futebol que me abriu as portas para ser um escritor publicado, e consequentemente podendo publicar duas dezenas de livros sobre outros assuntos, no que sou eternamente grato.
Monstros sagrados das letras como Eduardo Galeano, Nelson Rodrigues, Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade e tantos outros celebraram o futebol em suas obras. É impossível crer que o fizeram por alienação.
Por outro lado, como em qualquer estrato da sociedade, o futebol carrega problemas em seu entorno e até mesmo nas vísceras. Há quem prefira abominá-lo por isso. Eu prefiro procurar nele o que tem de melhor e, na minúscula parte que me cabe, criticar e denunciar o que considero errado e injusto.
O futebol me deu sensação de pertencimento a grupos, me trouxe amigos, me fez ir a veículos de rádio e TV ao vivo que eu jamais imaginaria. O futebol me permitiu passar horas conversando com personalidades como Gilberto Gil e Maria Bethânia. Conheci lugares, viajei e mergulhei tanto em estádios confortáveis como em verdadeiros muquifos para ver jogos com milhares de torcedores ou uns cinco, dez.
Anos depois de publicar meus primeiros livros, passei a produzir obras de outros escritores, em vários casos de futebol. É alienação ou produção?
Por fim, gostaria de dizer o seguinte: o Brasil não vai melhorar em nada porque a Seleção Brasileira é eliminada da Copa do Mundo e então o povo "retorna à realidade". Diferente de criticar a atuação, apedrejar o futebol não acrescenta nada ao grande debate que todos esperam para que o país saia desse lodaçal. Pelo contrário: o futebol é um dos grandes símbolos da identidade brasileira e deve ser valorizado.
É certo que alguns jogadores famosos estão desalinhados da realidade brasileira e parecem despreocupados com seu povo. Só que eles passam e o esporte fica. Aí está há mais de 120 anos fincado no coração dos brasileiros. E é bom que se diga: mais de 90% dos jogadores de futebol no Brasil não ganham dois salários mínimos mensais.
Tanto faz se é numa arena moderna ou num campinho minúsculo. O futebol une as pessoas, integra, gera convivências e afetos e, num país onde mais de 70 milhões de pessoas oscilam entre a precarização e a miséria, muitas vezes ele é o único momento de alegria - às vezes até de paz. Podem ter certeza: em muitas vezes, o caldo social brasileiro não entornou de vez porque lá estava o futebol ajudando a acalmar os ânimos, em muitas esferas.
Em vez de posts empolados e com teorias confusas, muitos intelectuais contribuiriam para a discussão sobre futebol fazendo exatamente o que fazem com suas temáticas preferidas: pesquisando e estudando em vez de chutar - muito mal, por sinal.
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Paulo-Roberto Andel, escritor e estatístico carioca, é autor/coautor de aproximadamente 40 livros físicos e digitais sobre futebol, poesia, crônicas, humor e política. Edita o site Panorama Tricolor, o blog otraspalabras!, colabora com o Correio da Manhã e o Museu da Pelada. Sobre o Fluminense, seu time de coração, publicou 20 livros.
quarta-feira, 27 de junho de 2018
Ainda Vale a Pena
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(Na foto, Falcão, Luís Pereira e Juari. Presentes da minha mãe em 1979, com seu salário de manicure). |
Neste momento milhões de brasileiros estão tendo aquela que pode ser a sua única alegria do dia. A maioria do povo, aliás.
É impossível não torcer por eles e por mim mesmo, porque também sou um homem pobre, mais perto do fim do que do começo e também choro sempre. Tenho muitos motivos para isso, mas o principal deles é que não sou um escroque que só pensa em si. E qualquer pessoa que se preocupe com o próximo no Brasil acaba chorando.
No meio do caminho, tem os estudantes fuzilados, a moça que vai comprar uma roupa e some, os policiais assassinados, o desemprego, a fome, o caos. Está tudo na rua de qualquer grande cidade, só não vê quem enxerga com olhar hipócrita.
E por uma hora e meia o Brasil tem praticamente um cessar-fogo. Eu tenho um cessar-fogo no meu peito triste e doente.
Em 1970 eu era um bebê em casa e meus pais choravam porque meu tio estava preso, tomando porrada da ditadura num prédio que fica a 200 metros da minha casa.
Em 1978 eu saí à rua para pagar a mensalidade da escola no intervalo de Brasil x Argentina, na casa da diretora reaça. Uma chuva de papel picado na rua, linda.
Em 1982, andei com meus amigos pelas ruas desertas de Copacabana até a Lagoa, para jogar bola depois dos 3 a 2 da Itália. A bola caiu na Lagoa, sumiu rapidinho e voltamos desolados. Não havia um carro na rua.
Em 1990 a gente estava na casa do Luizinho. Nosso Xuru xingando o mundo inteiro depois do gol de Caniggia. A final de 1994 eu ouvi pelo rádio sozinho: não tinha dinheiro nem TV, no máximo esperança no futuro.
Em 1998, 2002 e 2006 em casa, com minha família. Foram tempos felizes. A de 2010 foi no trabalho - um jogo foi especial, já escrevi sobre isso. Em 2014, a festa foi bonita demais, apesar do desastre no campo: dava uma sensação de pertencimento ao país vendo as ruas, as gentes.
Agora, do jeito que dá, o futebol é algum bálsamo. A turma no botequim humílimo chorando - sim - com o golaço de CR7 no empate com a Espanha. Todo mundo vibrando com a Islândia contra a Argentina. E daí que a Coreia estava eliminada? O resultado aí está.
Eu não tenho compromisso algum com dirigentes corruptos, empresários de jogadores, jogadores deslumbrados, jornalistas pernósticos e prepotentes - que todos se explodam. O meu compromisso é com o gol, com o garoto do Alemão e sua camisa escrita a caneta, com os abraços, com a solidariedade, com os botões de panelinha, com a saudade da minha família. Se existe lama no futebol - e como há! -, a culpa não é dele mas sim de quem o controla ou tenta controlar - geralmente são os mesmos, que ninguém se iluda.
O mundo já está cheio de gente querendo decidir o que se pode ou não, mas que mal sabe de si mesma. O que eu quero é só uma horinha de alegria entre as lágrimas diárias. Penso nos ambulantes sorrindo agora, os trabalhadores humildes, os garotos sonhando em fazer um gol numa Copa. Eu já fui um garoto e sei bem o valor disso.
A Seleção venceu. Pode ter sido o penúltimo passo, pode ter sido o terceiro rumo ao hexa, pode ser qualquer coisa. Não importa: houve uma pequena felicidade, especialmente para quem quase nunca a tem. É como o amor, que vence até quando fracassa, pelo simples existir.
Ainda vale a pena.
EDTE TEXTO PERTENCE AO ESCRITOR PAULO-ROBERTO ANDEL
sábado, 30 de dezembro de 2017
Fim de Ano do Futebol Brasileiro
Todo ano eu me pergunto em dezembro onde estavam nos útlimos anos e eleições os clubes que hoje se lamentam pelo calendário.
Todo ano eu tento entender como 10 clubes podem achar ruim a cota de TV e só 2 estarem felizes sendo que 10 podem fazer um campeonato e 2 não.
Todo ano eu tento entender porque o torcedor é tão facilmente manipulado pela mídia que odeia a CBF e não percebe que tudo que está lá é meramente a representação oficial autorizada do SEU clube.
Há meses a CBF não tem presidente que possa sair do país. Algum clube foi lá cobrar da entidade o afastamento dele? Que houvesse nova eleição? Que algo fosse feito pela representação dos clubes?
Não.
Houve algum movimento entre os clubes para que a eleição na CBF seja ANTECIPADA após a suspensão do presidente? Não. Ela será ADIADA para que ele esteja de volta ao cenário político.
Nos últimos anos qualquer analfabeto entendeu que o sistema de corrupção, má gestão e favores do governo só existe porque é sustentado de baixo pra cima. Não notaram que o futebol brasileiro tem um sistema político muito parecido e, portanto, tem muita gente muda porque está feliz.
Seu clube, seja ele qual for, é cúmplice e hoje um dos mais covardes pilares do futebol brasileiro. Se há 12 "grandes" que se quiserem mudam tudo, sabemos de quem são. E eles não estão muito preocupados com nada disso, apenas com qual jogador vão tirar do rival via liminar, ou talvez como vão eleger alguem mais próximo desse ou daquele dirigente. Ou também, "pra que se indispor com o presidente e amanhã ter um pênalti não marcado?", como ouvi outro dia.
Não querem mudar. Não vão mudar.
A CBF passou pelo ano todo esperando uma atitude de fora pra dentro que pudesse intervir no absurdo que é ter um presidente que não pode exercer suas funções em sua totalidade e nem ter a dignidade de pedir pra sair enquanto nota ser um atraso pro futebol brasileiro.
Ninguém se mexeu. Nenhuma federação ou clube tentou mudar isso ou protestar contra o cenário.
E você realmente acha que seu clube é "vítima" de qualquer calendário, receita de TV, regras do jogo ou politicagem do futebol brasileiro?
Então tá.
abs,
RicaPerrone
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