segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

Letra

 

Meu pai tinha uma letra maravilhosa. Eu gostava de vê-lo escrever. Ele escrevia pequenas coisas todos os dias: lista de tarefas, coisas para comprar, preços para pesquisar. Eu achava muito legal quando ia à rua com seu bilhete para comprar coisas ou realizar tarefas.

Minha letra já foi bonita, não como a dele, mas bonita também. Digitando em computadores há mais de trinta anos, ela se perdeu. Embora seja um proletário como outro qualquer, frequentemente preciso autografar livros e fazer dedicatórias. Que vergonha da minha letra! Ainda bem que ninguém reclama. Dado o retorno, as pessoas parecem gostar dos livros, ufa!

Desde criança eu era cercado de letras e números, aqueles de plástico para aprender a montar palavras e contar. Ainda me lembro como minha mãe ficou assustada ao me ver escrevendo sozinho - eu nunca tinha ido à escola. Por diversos motivos, o fato é que fiz do antigo primário uma completa zona: não fiz a primeira série, só fiz o último bimestre da segunda e o primeiro da terceira. Fui parar na quarta.

Os anos poupados no primário foram derramados na UERJ, onde gastei - melhor dizendo, investi - dias e dias com matérias muito loucas, shows, filmes, garotas lindas, futebol e conversa fiada - o esporte preferido. Me formei com dois anos a mais de curso, como todo ser humano normal, mas com uma tremenda vantagem: somada aquela experiência do primário com a da faculdade, mais a do trabalho (onde escrevi matérias e releases por anos a fio, sem assinar) e posteriormente no convívio na Livraria Berinjela, mais alguns anos de coragem e ploft - virei o que chamam de um escritor.

Isso não mudou em nada minha pobreza, minha tristeza e meu ceticismo sobre o ser humano, mas me deu uma satisfação enorme de fazer algo bem, do jeito que meu pai fazia com sua linda letra. É uma pena que ele não tenha lido um livro meu, mas todos têm a influência dele, de alguma forma.


@pauloandel

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

Fungo-Zumbi, remédio ou risco à humanidade?

 

A estreia da série para TV Last of Us, baseada no game de mesmo nome, deixou muita gente com dúvidas em relação ao fungo que gera a infecção que acaba com a humanidade como conhecemos.

Trata-se do Cordyceps, que é um fungo que cresce principalmente em insetos. Este tipo de fungo, não atinge humanos, porém já é usado na medicina.

Além de revelar propriedades promissoras em relação ao câncer e pacientes com resistência à insulina, o fungo ainda é usado para outros tratamentos (LEIA MAIS).

O Cordyceps é muito conhecido na medicina tradicional chinesa, japonesa, coreana e indiana. Na China chega a ser comercializado em pacotes que contêm a larva parasitada e o ascoma do fungo, e é considerado o item mais caro da medicina chinesa.

Na formiga, o fungo-zumbi, age de maneira semelhante a que ocorre na série. O inseto contaminado através dos esporos do parasita passa a ser consumido conforme o fungo se desenvolve dentro da formiga.

O cérebro porém, permanece funcional, enquanto o fungo controla aos poucos as estruturas musculares do hospedeiro, que continua com suas atividades instintivas.

O fungo vais se proliferando na vítima até atingir o sistema nervoso central, geralmente em duas semanas após a infecção.

Durante esse período, a formiga age como um zumbi, ainda viva, com toda a noção espacial, mas perdendo domínio dos seus movimentos.

Com a mobilidade comprometida, a formiga passa a ter tremores e cair frequentemente, tendo convulsões e outros problemas neurológicos.

Em seguida a formiga morre, e após dias o fungo inicia um novo ciclo de proliferação e contágio através de esporos soltos no ambiente.

Cientistas afirmam que a espécie não causa nenhum mal ao ser humano, porém, no cinema e na TV, geralmente, o que ocorre quando utilizamos este tipo de fungo, vírus ou germe para fins medicinais, é geralmente a extinção da raça humana.

Você teria coragem de fazer como chineses e japoneses que usam este fungo como remédio, e correria o risco de se tornar um zumbi?

Eu acho que usar boldo, continua sendo uma alternativa mais segura, obrigado.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

Fluminense x Botafogo, analisamos o passo a passo do pênalti polêmico

O clássico entre Botafogo e Fluminense disputado neste domingo, 29 de janeiro, terminou com vitória do time da estrela solitária.

O gol de Victor Sá foi o único da partida, e acabou selando o placar final em favor do Botafogo.

Mas a polêmica maior desta partida ficou por conta de uma penalidade apitada em favor do Fluminense.

Ganso achou Keno na área que foi puxado por Rafael, quando sairia na cara do gol. O árbitro Bruno Mota Correia assinalou a penalidade.

A partir daí, o que se viu no Maracanã foi o suficiente para gerar toda a polêmica: com Ganso, Arias e Cano em campo, quem partiu para a cobrança defendida pelo arqueiro do Botafogo foi o lateral Calegari.

Após o jogo, a explicação foi de que os jogadores decidiram em campo quem cobraria o pênalti, contrariando orientação do técnico Fernando Diniz.

O nosso Blog foi atrás, e coletou uma sequência de imagens para tentar entender o que houve de fato no Maracanã.

Veja abaixo:
Keno invade a área, recebe de Ganso e é agarrado por Rafael. Pênalti em favor do Fluminense. Note que Ganso chama Arias próximo a meia-lua.
A próxima imagem, mostra Ganso conversando com Calegari, após falar com Martinelli. Mais próximo a área outros jogadores comemoram a marcação da falta.
Ganso chama então os outros jogadores. Cano parece não notar e aparece de cabeça baixa na entrada da área.
Ganso conversa com Calegari, Keno, Arias. Martinelli parece tentar chamar Cano.
Cano não vai até o grupo, pois parece estar observando a discussão do juiz com os jogadores do Botafogo. Martinelli parece estar falando algo com o jogador camisa 7 do Botafogo, mas pode estar na verdade olhando para a direção do banco do Fluminense.
Martinelli então vai se juntar ao grupo de jogadores em torno de Ganso. Cano segue afastado e de cabeça baixa.
Neste momento, a TV muda para a imagem do juiz, e quando volta, mostra Martinelli se afastando aparentemente contrariado, enquanto Ganso parece tentar argumentar com Arias.
Ganso continua conversando com Calegari, enquanto Keno e Arias se afastam. Cano permanece afastado na entrada da área, em atitude de submissão. Arias segue de cabeça baixa e parece não concordar com alguma coisa.
A próxima imagem mostra Cano falando algo com Arias, que ainda parece em postura de discordância.
Neste momento, a TV mostra o replay da falta que originou o pênalti, e quando volta, vemos Samuel Xavier com a bola nas mãos, discutindo com jogadores do Botafogo e com o juiz. Desde a marcação da falta, o goleiro do Botafogo permanece em silêncio com mas mãos na cintura com olhar sério.
Após mais um replay, a imagem volta ao campo e já vemos Calegari em posse da bola.
Calegari olha na direção de Ganso, enquanto o juiz retira os jogadores da área.



A próxima sequência de imagens mostra Arias indo em direção ao banco de reservas, visivelmente contrariado. Ele faz sinal com a mão na direção da boca, como se dissesse que não falaria mais nada.

As próximas duas imagens mostram que enquanto o juiz retira os jogadores do Botafogo da área, Keno parece conversar algo com Ganso.
Calegari vai para a marca da penal, aparentemente concentrado.
Antes de colocar a bola na marca, Calegari volta mais uma vez para a direção da entrada da área, olhando para Ganso, enquanto Samuel Xavier e jogadores do Botafogo ainda discutem com o juiz.
Depois, ele se volta para o gol novamente.
Enquanto Samuel Xavier continua sua reclamação, Calegari mais uma vez olha para Ganso.




Antes de colocar bola no chão, Calegari olha para Samuel Xavier e o juiz. E volta a olhar na direção de Ganso. Depois abaixa um pouco o olhar, como se a decisão tomada fosse irrevogável. Ele coloca a bola no chão, e enxuga o rosto com a camiseta. Não dá para perceber se é por nervosismo.



Após colocar a bola na marca, Calegari ouve a última instrução do juiz, e toma distância para a cobrança. Ele olha para o goleiro do Botafogo e faz um sinal de deboche com a língua e um sorriso. O goleiro permanece sério, em silêncio, olhando fixamente para o rosto de Calegari.



Enquanto Calegari espera o apito do juiz, Ganso aparece caminhando de cabeça baixa. Calegari corre, bate e o goleiro Lucas Perri defende.


CONCLUSÃO
É muito difícil ter uma certeza absoluta sobre o que aconteceu, apenas se baseando nas imagens, sem ter acesso ao que foi conversado pelos jogadores. Mas analisando apenas esta sequência de imagens, o que pode ter ocorrido é uma claríssima tomada de decisão dos jogadores em campo à revelia da decisão do treinador.
As imagens mostram que possivelmente Ganso convenceu os jogadores a deixarem a cobrança para Calegari, e que ao menos Arias, aparentemente não concordou e se mostrou muito contrariado.

O que essa atitude vai provocar dentro do Fluminense, é um problema que Fernando Diniz terá de resolver. O treinador tem fama de briguento por onde passa, e aparentemente cobra demasiadamente dos jogadores, mas neste caso (se confirmada esta versão), o treinador não teve sua ordem atendida. Diniz precisará retomar o controle técnico dos jogadores.

A torcida é para que ele e Ganso não se tornem antagonistas, pois deles depende o sucesso do Fluminense nas competições deste ano, principalmente a Libertadores da América.

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quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

Apresentador do SBT enfarta diante das câmeras e morre

 

Flávio Cavalcanti foi jornalista, repórter, apresentador de rádio e televisão e compositor.

Um dos mais polêmicos comunicadores brasileiros, que durante muito tempo brilhou no comando de programas de rádio e TV nas décadas de 960 e 1970.

Seu primeiro programa de rádio foi Discos Impossíveis na Rádio Tupi, que 1952 passou a ser transmitido pela Rádio Mayrink Veiga. Ainda na Rádio Mayrink, Flávio também realizou o programa Nós os Gatos, em 1955, ao lado de Jacinto de Thormes.

Já em 1957, Flávio estrou na TV com o programa Um instante, Maestro!, na TV Tupi. E logo foi para o programa Noite de Gala na TV Rio.

Em 1965, foi para a TV Excelsior, onde voltou com seu programa Um instante, Maestro!. E no ano seguinte de volta a Tupi, lançou ainda mais dois programas na emissora: A Grande Chance e Sua Majestade é a Lei.

Em 1970, finalmente estreou o Programa Flávio Cavalcanti, na Rede Tupi, indo ao ar aos domingos. Foi um dos primeiros programas a ser transmitido para todo o país.

Flávio tinha um estilo polêmico e fez história na TV brasileira. Ele criticava artistas e músicas, e chegava a quebrar ao vivo, discos de cantores que considerasse ruins.

Foi ele um dos responsáveis por criar o primeiro júri de calouros na televisão brasileira. Muitos artistas de sucesso, começaram com Flávio Cavalcanti.

Em 1973, seu programa na Rede Tupi foi suspenso por 60 dias pela Censura Federal. E após problemas financeiros da Tupi, se transfere para a TVS em 1976, mais uma vez com seu Um instante, Maestro!. E em 1978, volta a Tupi com o Programa Flávio Cavalcanti, e permaneceu por lá até o fechamento da emissora em 1980.

Em 1982, na Rede Bandeirantes apresentou o programa Boa Noite, Brasil. E entre 1983 e 1986, já no SBT, reeditou o Programa Flávio Cavalcanti.

Flávio Cavalcanti era casado com Belinha Cavalcanti desde 1948 e com ela teve três filhos.

A MORTE

Em 1983, no SBT, comandando o Programa Flávio Cavalcanti, com grande audiência, quebrando discos de artistas que não gostava, pautando temas polêmicos e recebendo os mais variados convidados, Flávio jamais poderia prever o que estava para acontecer.

No dia 22 de maio de 1986, enquanto apresentava seu programa na emissora de Sílvio Santos, ele levantou o dedo indicador direito, como de costume e disse:

- Nossos comerciais, por favor.

Após o intervalo comercial, Wagner Montes surpreendeu o público substituindo Flávio Cavalcanti que havia passado mal.

- Vocês devem estar estranhando eu apresentando o programa. Desculpem, mas eu também fui pego de improviso. Mas o Flávio teve uma pequena indisposição e , se Deus quiser, na próxima quinta-feira, ele estará aqui, porque aqui é o seu lugar, para comandar o Programa Flávio Cavalcanti.

Foram as palavras de Wagner Montes para explicar ao público sua presença ali.

Flávio havia sofrido um enfarto. O apresentador permaneceu internado até o dia 26 de maio, quando morreu aos 64 anos de idade.

domingo, 8 de janeiro de 2023

Pelé, por Nelson Rodrigues

 


Meu personagem da semana (crônica de Nelson Rodrigues sobre Pelé em 1958)

texto foi publicado originalmente na revista Manchete Esportiva


29 de dezembro de 2022 | 16h41

Depois do jogo América x Santos, seria um crime não fazer de Pelé o meu personagem da semana. Grande figura, que o meu confrade Albert Laurence chama de “o Domingos da Guia do ataque”. Examino a ficha de Pelé e tomo um susto: 17 anos! Há certas idades que são aberrantes, inverossímeis. Uma delas é a de Pelé. Eu, com mais de 40, custo a crer que alguém possa ter 17 anos, jamais. Pois bem: verdadeiro garoto, o meu personagem anda em campo com uma dessas autoridades irresistíveis e fatais. Dir-se-ia um rei, não sei se Lear, se imperador Jones, se etíope. Racialmente perfeito, do seu peito parecem pender mantos invisíveis. (...)

O que nós chamamos de realeza é, acima de tudo, um estado de alma. E Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável: a de se sentir rei, da cabeça aos pés. Quando ele apanha a bola e dribla um adversário, é como quem enxota, quem escorraça um plebeu ignaro e piolhento.

E o meu personagem tem uma tal sensação de superioridade que não faz cerimônias. Já lhe perguntaram: “Quem é o maior meia do mundo?” Ele respondeu, com a ênfase das certeza eternas: “Eu”. Insistiram: “Qual é o maior ponta do mundo?” E Pelé: “Eu”. Em outro qualquer, esse desplante faria rir ou sorrir. Mas o fabuloso craque põe no que diz uma tal carga de convicção, que ninguém reage e todos passam a admitir que ele seja, realmente, o maior de todas as posições. Nas pontas, nas meias e no centro, há de ser o mesmo, isto é, o incomparável Pelé.

Vejam o que ele fez, outro dia, no já referido América x Santos. Enfiou, e quase sempre pelo esforço pessoal, quatro gols em Pompéia. Sozinho, liquidou a partida, liquidou o América, monopolizou o placar. Ao meu lado, um americano doente estrebuchava: “Vá jogar bem assim no diabo que o carregue!”.

De certa feita, foi até desmoralizante. Ainda no primeiro tempo, ele recebe o couro no meio do campo. Outro qualquer teria despachado. Pelé, não. Olha para frente e o caminho até o gol está entupido de adversários. Mas o homem resolve fazer tudo sozinho. Dribla o primeiro e o segundo. Vem-lhe ao encalço, ferozmente, o terceiro, que Pelé corta sensacionalmente. Numa palavra: sem passar a ninguém e sem ajuda de ninguém, ele promoveu a destruição minuciosa e sádica da defesa rubra.

Até que chegou um momento em que não havia mais ninguém para driblar. Não existia uma defesa. Ou por outra: a defesa estava indefesa. E, então, livre na área inimiga, Pelé achou que era demais driblar Pompéia e encaçapou de maneira genial e inapelável.(...)

Na Suécia, ele não tremerá de ninguém. Há de olhar os húngaros, os ingleses, os russos de alto a baixo. Não se inferiorizará diante de ninguém. E é dessa atitude viril e mesmo insolente que precisamos. Sim, amigos: aposto minha cabeça como Pelé vai achar todos os nossos adversários uns pernas de pau.=

Por que perdemos, na Suíça, para a Hungria? Examinem a fotografia de um e outro time entrando em campo. Enquanto os húngaros erguem o rosto, olham duro, empinam o peito, nós baixamos a cabeça e quase babamos de humildade. Esse flagrante, por si só, antecipa e elucida a derrota. Com Pelé no time, e outros como ele, ninguém irá para a Suécia com a alma dos vira-latas. Os outros é que tremerão diante de nós.


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Estadão

domingo, 11 de dezembro de 2022

Ainda Sobre Futebol, Apedrejamentos e Reflexão

 

Nesta manhã de domingo triste - meu amigo Caninha se foi -, parei para ler perfis diversos, admiráveis e desconhecidos, todos teorizando sobre a Copa do Mundo. Especialmente os que tentaram fazer um mergulho, digamos, mais intelectualizado sobre o tema. 


Para meu gosto e análise pessoal, entre desabafos e decepções naturais, também li um festival de besteiras sobre o assunto. Besteiras colossais, aliás. 


O futebol não é apaixonante apenas no Brasil, mas no mundo todo. A Copa do Mundo para a Terra. É um fato. E quem nutre paixão pelo esporte mais popular do planeta não é "alienado" nem vive de "ilusão" por conta dos sentimentos que desenvolveu. Muitas vezes o futebol é bálsamo para aliviar as pancadas diárias na sofrida vida brasileira.


Para quem viveu o Maracanã de verdade até 2010 e vive o esporte, explicar essa paixão no Brasil não é simples. Há uma enorme complexidade em torno do tema, que teorias acadêmicas distantes não dão conta de cobrir. O que dá para dizer é que foi uma febre nos primeiros 25 anos do século XX que nunca mais passou.


Portanto, falarei aqui como o que sou: um torcedor. É apenas o meu relato pessoal e só. 


Embora sempre tenha pertencido à maioria pobre da população brasileira, tive uma criação digna, passando por boas escolas, tendo como estudar. Passei muitas dificuldades, mas caminhei até à universidade pública, bem ao lado do Maracanã, para minha alegria 


Durante boa parte da minha vida, 25 anos, vivi no bairro mais misturado do Brasil: Copacabana. Lá, vi e conheci de tudo, porque todas as classes sociais interagem de alguma forma, com a quase exceção de parte dos milionários da Avenida Atlântica. Havia interação na escola pública que frequentei, no grupo de escoteiros que fiz parte por muitos anos, mas o único lugar em que realmente sentia integração total era no futebol - de praia, da vila onde estudei, da quadra que alugávamos com trocados no Corpo de Bombeiros. 


Quando meu pai começou a me levar ao Maracanã, logo percebi que as pessoas não eram exatamente iguais às de Copacabana (e olhe que lá era tudo misturado). Havia uma mistura única. Várias vezes, ele comprava na bilheteria ingressos extras, três ou quatro, e distribuía para os garotos que pediram dinheiro para comprar um. Eles pulavam enlouquecidos, felizes, se abraçavam e subiam a grande rampa do Maracanã com suas roupas simples, às vezes sem chinelos e isso me emociona porque me leva a mais de quarenta anos atrás. 


Eram crianças alienadas ou crianças de posse e total vivência de sua única alegria? 


Os melhores momentos de minha vida com meu pai foram no Maracanã, sentado ao lado dele, espremido numa multidão. Cheio de pessoas diferentes, de todos os jeitos, de todas as cores, de todas as classes. Juntos, lamentamos grandes gols dos adversários e comemoramos muito os nossos. Vimos lindos espetáculos de bandeiras e muito, muito pó de arroz no ar. Não era só o jogo, mas chegar cedo, ver a multidão se aproximando, mais de cem mil pessoas pobres e ricas, pretas e brancas, gordas e magras, gays e heterossexuais, todas reunidas em torno do gramado para apreciar arte, num tempo em que tínhamos craques a granel. 


Vendo um filme arrebatador, ou uma peça espetacular de teatro, ou ainda um show no inesquecível Canecão, você chegava a quinhentas, mil ou duas mil pessoas reunidas. Por vários motivos, nestes palcos sagrados e fundamentais, não havia a devida mistura social da cidade do Rio. No Maracanã, sim, e com cinquenta ou setenta vezes mais gente. Dá para compreender a dimensão? Isso a cada domingo durante quase sessenta anos, desde 1950. 


Gostaria de lembrar que dois dos maiores atores brasileiros de todos os tempos eram completamente apaixonados por futebol: Sérgio Britto e Ítalo Rossi. Se fosse fazer uma lista de músicos, passaria o dia escrevendo, então rapidamente me lembro de João Nogueira, Cartola, João Gilberto e Ciro Monteiro, só para começar. 


No Maracanã a gente se sentia gente de verdade, integrada, mesmo que o próprio estádio tivesse sido construído com certos apartes - casos da geral e da arquibancada, por exemplo -, mas eles não deram certo. Ali se vivia o único local do Rio de Janeiro onde o riso, o grito e a lágrima do homem pobre tinham o mesmo tamanho do cidadão rico. O único local. Nem o Carnaval, outro palco espetacular, tinha tanta oferta a preços populares. 


Completamente louco por futebol, passei a ler todos os jornais possíveis em casa diariamente. Isso me levou às notícias políticas, de cotidiano, da cidade, de arte e cultura, isso com doze anos de idade. Foi o futebol que abriu espaço para meus outros interesses culturais, que não são poucos - vão de Estatística a botequins. E muitos anos depois de estar com meu pai de mãos dadas no Maracanã, foi o futebol que me abriu as portas para ser um escritor publicado, e consequentemente podendo publicar duas dezenas de livros sobre outros assuntos, no que sou eternamente grato. 


Monstros sagrados das letras como Eduardo Galeano, Nelson Rodrigues, Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade e tantos outros celebraram o futebol em suas obras. É impossível crer que o fizeram por alienação. 


Por outro lado, como em qualquer estrato da sociedade, o futebol carrega problemas em seu entorno e até mesmo nas vísceras. Há quem prefira abominá-lo por isso. Eu prefiro procurar nele o que tem de melhor e, na minúscula parte que me cabe, criticar e denunciar o que considero errado e injusto. 


O futebol me deu sensação de pertencimento a grupos, me trouxe amigos, me fez ir a veículos de rádio e TV ao vivo que eu jamais imaginaria. O futebol me permitiu passar horas conversando com personalidades como Gilberto Gil e Maria Bethânia. Conheci lugares, viajei e mergulhei tanto em estádios confortáveis como em verdadeiros muquifos para ver jogos com milhares de torcedores ou uns cinco, dez. 


Anos depois de publicar meus primeiros livros, passei a produzir obras de outros escritores, em vários casos de futebol. É alienação ou produção? 


Por fim, gostaria de dizer o seguinte: o Brasil não vai melhorar em nada porque a Seleção Brasileira é eliminada da Copa do Mundo e então o povo "retorna à realidade". Diferente de criticar a atuação, apedrejar o futebol não acrescenta nada ao grande debate que todos esperam para que o país saia desse lodaçal. Pelo contrário: o futebol é um dos grandes símbolos da identidade brasileira e deve ser valorizado. 


É certo que alguns jogadores famosos estão desalinhados da realidade brasileira e parecem despreocupados com seu povo. Só que eles passam e o esporte fica. Aí está há mais de 120 anos fincado no coração dos brasileiros. E é bom que se diga: mais de 90% dos jogadores de futebol no Brasil não ganham dois salários mínimos mensais. 


Tanto faz se é numa arena moderna ou num campinho minúsculo. O futebol une as pessoas, integra, gera convivências e afetos e, num país onde mais de 70 milhões de pessoas oscilam entre a precarização e a miséria, muitas vezes ele é o único momento de alegria - às vezes até de paz. Podem ter certeza: em muitas vezes, o caldo social brasileiro não entornou de vez porque lá estava o futebol ajudando a acalmar os ânimos, em muitas esferas. 


Em vez de posts empolados e com teorias confusas, muitos intelectuais contribuiriam para a discussão sobre futebol fazendo exatamente o que fazem com suas temáticas preferidas: pesquisando e estudando em vez de chutar - muito mal, por sinal.




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Paulo-Roberto Andel, escritor e estatístico carioca, é autor/coautor de aproximadamente 40 livros físicos e digitais sobre futebol, poesia, crônicas, humor e política. Edita o site Panorama Tricolor, o blog otraspalabras!, colabora com o Correio da Manhã e o Museu da Pelada. Sobre o Fluminense, seu time de coração, publicou 20 livros.

domingo, 23 de outubro de 2022

Iza se Declara Demissexual

 

Recém divorciada a cantora Iza fez uma declaração chocante sobre sua vida pessoal.

A cantora se declarou demissexual.

Nós aqui da Página, não fazemos a mínima ideia do que isso signifique, e nem tivemos tempo de pesquisar.

Apenas publicamos a notícia para gerar visualização na página.

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